terça-feira, 1 de setembro de 2009

Cena roqueira de Pequim está pronta para dominar o mundo




Michael Pettis já passou pelo turbilhão musical que foi a Nova York do começo dos anos 80. Na terra do tio Sam ele pilotava o S.I.N., mas ele trabalhava mesmo com finanças.

Em Pequim, onde mora atualmente, ele fundou o selo Maybe Mars, especializado em rock alternativo, e também "abrigou" a cena local na casa noturna D-22.

Desse pequeno núcleo saíram bandas que hoje começam a romper as fronteiras mundiais, como Hedgehog, Joyside e – em especial – Carsick Cars.

Abaixo Pettis fala mais sobre a cena chinesa e a luta pela independência. Musical, claro.

WITH LASERS - Como você se envolveu com a cena de rock de Pequim?

MICHAEL PETTIS - Sempre amei música e estive envolvido com ela, de uma forma ou de outra. No começo dos anos 80 eu cheguei a abrir uma casa de shows no East Village, em Nova York, o que era uma forma de conhecer um dos meus heróis, o músico brasileiro/norte-americano Arto Lindsay. O meu clube acabou sendo o lugar onde bandas como o Sonic Youth e o Swans começaram, além de compositores como John Zorn e Elliott Sharp.

Quando me mudei para a China, em 2002, imediatamente comecei a freqüentar as baladas e, apesar de encontrar alguns músicos muito talentosos, a cena era muito derivativa, decepcionante e chata. As únicas bandas que conseguiam tocar nas casas noturnas eram as que imitavam as norte-americanas ou britânicas. Eu achava que Pequim precisava de um clube tipo os de Nova York, com uma platéia disposta a seguir os artistas, dando liberdade para que eles pudessem tocar o que quisessem e que os desafiasse. Os músicos de lá só precisavam desse apoio para que começassem a fazer uma música própria.

No Brasil houve uma explosão de bandas independentes nos últimos anos, mas a cena estagnou quando os artistas não conseguiram penetrar no mainstream. É possível sobreviver e evoluir na China sem o mainstream?

É sempre difícil manter a música independente, mas a cena está crescendo rapidamente e há excitação. É preciso se lembrar que a China tem uma história musical muito menor que a do Brasil – até o fim dos anos 80 só o pop açucarado e a música politicamente aceitável era executada e – até a chegada da internet na última década – a maior parte dos chineses desconhecia a música estrangeira. Então a China é hoje mais ou menos como os EUA nos anos 60: a música não é só música, ela faz parte de uma revolução cultural mais ampla que traz liberdade, novas idéias, e uma forma de expressar a insatisfação com o materialismo oficial e o conformismo da China de hoje. É isso que mantem a cena crescente e vibrante.



A língua é um problema para as bandas chinesas? Bandas como o Carsick Cars – que tocou nos festivais europeus este ano – estão cada vez mais cantando em inglês e deixando o mandarim de lado. Fora esse lado comercial ligado à aceitação em outros mercados, como os artistas se sentem cantando em inglês?

A decisão de cantar em inglês é difícil em qualquer país onde essa não é a língua oficial. Na China também há o fato de que a tonalidade do mandarim é difícil de se encaixar nos ritmos do rock and roll. Com certeza a maior parte dos artistas mais velhos – com exceção do PK 14 - cantavam basicamente em inglês, mas os mais novos cantam e ambas as línguas, aprendendo a encaixar o chinês no rock. É uma questão de rebeldia. Ao cantar em inglês nossos músicos se distanciam da cultura dominando – que eles rejeitam – mesmo que isso signifique que eles vendam menos CDs. Nós incentivamos nossos artistas a cantarem em chinês porque, no fim, acreditamos que eles precisam se comunicar com a platéia de onde eles vêm, mas claro que nunca os obrigaríamos a fazerem qualquer coisa. A escolha é deles.

Como é a cena fora de Pequim? As bandas conseguem viajar e tocar pelo resto do país?


Três anos atrás era muito difícil tocar no resto da China, mas em março deste ano o Carsick Cars e o The Gar tocaram em clubes pequenos e grandes em 23 cidades do país. A turnê chamou atenção e, mês que vem, um livro será lançado por um jovem escritor que acompanhou as bandas. Incentivamos nossas bandas a saírem em turnê e quase todos os dias alguma banda de Pequim está tocando em outros lugares. E, claro, isso também encoraja as bandas dessas cidades a fazerem o mesmo.

Pequim ainda é, de longe, o centro musical da China, mas estamos começando a ter mini-centros em Wuhan, Chengdu, Xian, Kunming, Nanquim e Xangai. A cena de rock chinesa é hoje como o punk nos EUA e Inglaterra no fim dos anos 70 – Londres e Nova York eram os centros, com casas noturnas, pequenas gravadoras e pessoas interessadas na música. A internet é importante porque faz com os dez garotos intelectuais de alguma cidade distante – que nunca teriam a chance de conhecer outras pessoas como eles – possam se reunir virtualmente, conhecer e acompanhar as bandas e compartilhar experiências. Especialmente nos últimos três anos, quando a qualidade musical aumentou e a música começou a chamar atenção globalmente e localmente, passou a haver excitação e uma abertura que fez com que as pessoas se envolvessem [com a cena] e se organizassem.

Nenhum comentário: