Eu sei: qualquer um acharia ingrata a ideia de defender o ex-beatle Ringo Starr. Mas eu quero ir um passo além e defender um disco solo dele lançado já nos anos 90. Acompanhe a minha exposição de fatos antes de pensar nos surrados clichês sobre o lendário baterista.
Time Takes
Time saiu em 1992 e marcou uma retomada da carreira do músico. O último disco
de estúdio dele, o esquecível Old Wave, havia saído quase uma década antes. Nesse meio
tempo, ele também começou a se apresentar ao vivo com maior frequência – algo que
não fazia desde os tempos do quarteto de Liverpool, que parou de excursionar em
1966.
Naquele
momento, Starr estava com sede de música. E Time Takes Time reflete esse estado
de espírito.
O time de
produção é um quarteto estelar: Don Was (que vinha de trabalhos com Bob Dylan,
Elton John, Iggy Pop e B-52’s), Jeff Lynne (que um tempinho depois produziria a
volta dos Beatles, com “Free as a Bird” e “Real Love”), Peter Asher (da dupla
Peter and Gordon, cunhado de Paul McCartney nos anos 60) e Phil Ramone (que
trabalhou com todo mundo). Era um sinal claro do esforço para fazer algo de qualidade.
Os créditos
de composição também mostram que houve uma boa curadoria para o trabalho. Starr
assina a coautoria de apenas três das 10 faixas, compostas por um time variado.
Diane Warren (de baladas de muito sucesso, como “Because You Loved Me” e “How
do I Live”) colaborou com “In a Heartbeat”; Roger Manning e Andy Sturmer, do
Jellyfish, entraram com “I Don’t Believe You”; e o mais incrível é que até uma
cover do Posies, “Golden Blunders”, acabou no disco!
Claro, é um
álbum do Ringo. E digo isso no melhor dos sentidos: mesmo com o esforço
comercial, é bem humorada e as canções são permeadas de um clima leve. Não é
algo a ser levado a sério demais – o que também não quer dizer que o contrário
seja verdade. É um trabalho competente do baterista, talvez a última vez que
ele realmente tenha se empenhado em um disco de estúdio.
E por isso
mesmo ele chegou a se irritar durante uma entrevista para a Rolling Stone norte-americana,
no lançamento de Time Takes Time, ao ouvir perguntas sobre a banda antiga dele.
“O que é isto? Uma porra de uma entrevista sobre os Beatles?”, perguntou
exaltado ao jornalista David Wild. Na mesma conversa, ele explica um pouco a
própria trajetória solo (e talvez seja até duro demais com ele mesmo):
“É a primeira vez desde o disco Ringo que coloco tanta energia na feitura de um álbum. Depois de Ringo e, talvez, Goodnight Vienna, comecei a enfiar o pé na jaca e a comparecer cada vez menos. Isso transparece na arte de qualquer um. Em muitos dos discos, eu estava apressado para chegar logo em casa – ou, com uma frequência maior, à casa de alguém. E outra coisa é que – a menos que você esteja entrevista o Paul ou o George – você está falando com um cara que está nesse meio há mais tempo do que a maioria. Quando você fica tempo, vai ter altos e baixos. No meu caso, foi ladeira abaixo depois de Ringo. Mas estamos voltando agora.”
Caras
conhecidas aparecem por todos os cantos de Time Takes Time. Brian Wilson faz
backing vocals (discretos) em “In a Heartbeat”, Harry Nilsson canta em “Runaways”
e integrantes dos Heartbreakers de Tom Petty estão em várias músicas. Até a
capa é boa, ilustrada pelo elogiado artista plástico Mark Ryden.
Não custa dar
uma chance ao Ringo e ouvir esse belo disco esquecido dos anos 90.












