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terça-feira, 29 de julho de 2014

Time Takes Time: quando Ringo Starr levou a música a sério de novo


 
Eu sei: qualquer um acharia ingrata a ideia de defender o ex-beatle Ringo Starr. Mas eu quero ir um passo além e defender um disco solo dele lançado já nos anos 90. Acompanhe a minha exposição de fatos antes de pensar nos surrados clichês sobre o lendário baterista.

Time Takes Time saiu em 1992 e marcou uma retomada da carreira do músico. O último disco de estúdio dele, o esquecível Old Wave, havia saído quase uma década antes. Nesse meio tempo, ele também começou a se apresentar ao vivo com maior frequência – algo que não fazia desde os tempos do quarteto de Liverpool, que parou de excursionar em 1966.

Naquele momento, Starr estava com sede de música. E Time Takes Time reflete esse estado de espírito.

O time de produção é um quarteto estelar: Don Was (que vinha de trabalhos com Bob Dylan, Elton John, Iggy Pop e B-52’s), Jeff Lynne (que um tempinho depois produziria a volta dos Beatles, com “Free as a Bird” e “Real Love”), Peter Asher (da dupla Peter and Gordon, cunhado de Paul McCartney nos anos 60) e Phil Ramone (que trabalhou com todo mundo). Era um sinal claro do esforço para fazer algo de qualidade.

Os créditos de composição também mostram que houve uma boa curadoria para o trabalho. Starr assina a coautoria de apenas três das 10 faixas, compostas por um time variado. Diane Warren (de baladas de muito sucesso, como “Because You Loved Me” e “How do I Live”) colaborou com “In a Heartbeat”; Roger Manning e Andy Sturmer, do Jellyfish, entraram com “I Don’t Believe You”; e o mais incrível é que até uma cover do Posies, “Golden Blunders”, acabou no disco!

Claro, é um álbum do Ringo. E digo isso no melhor dos sentidos: mesmo com o esforço comercial, é bem humorada e as canções são permeadas de um clima leve. Não é algo a ser levado a sério demais – o que também não quer dizer que o contrário seja verdade. É um trabalho competente do baterista, talvez a última vez que ele realmente tenha se empenhado em um disco de estúdio.

E por isso mesmo ele chegou a se irritar durante uma entrevista para a Rolling Stone norte-americana, no lançamento de Time Takes Time, ao ouvir perguntas sobre a banda antiga dele. “O que é isto? Uma porra de uma entrevista sobre os Beatles?”, perguntou exaltado ao jornalista David Wild. Na mesma conversa, ele explica um pouco a própria trajetória solo (e talvez seja até duro demais com ele mesmo):

“É a primeira vez desde o disco Ringo que coloco tanta energia na feitura de um álbum. Depois de Ringo e, talvez, Goodnight Vienna, comecei a enfiar o pé na jaca e a comparecer cada vez menos. Isso transparece na arte de qualquer um. Em muitos dos discos, eu estava apressado para chegar logo em casa – ou, com uma frequência maior, à casa de alguém. E outra coisa é que – a menos que você esteja entrevista o Paul ou o George – você está falando com um cara que está nesse meio há mais tempo do que a maioria. Quando você fica tempo, vai ter altos e baixos. No meu caso, foi ladeira abaixo depois de Ringo. Mas estamos voltando agora.”

Caras conhecidas aparecem por todos os cantos de Time Takes Time. Brian Wilson faz backing vocals (discretos) em “In a Heartbeat”, Harry Nilsson canta em “Runaways” e integrantes dos Heartbreakers de Tom Petty estão em várias músicas. Até a capa é boa, ilustrada pelo elogiado artista plástico Mark Ryden. 

Não custa dar uma chance ao Ringo e ouvir esse belo disco esquecido dos anos 90.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Filhos cometem injustiça póstuma com Roy Orbison


 Como bom fã, fiquei empolgado ao descobrir que Mystery Girl - o último disco que Roy Orbison lançou - ganharia uma edição especial. Porque é álbum que merece, ele realmente é especial. Pena que a alegria terminaria quando eu pegasse essa novidade nas mãos.

Mas antes, a história.

No meio dos anos 80, o cantor começava a sair de um buraco gigantesco: o esquecimento e a irrelevância. O Van Halen havia renovado o interesse na música dele com a regravação de sucesso de "Oh, Pretty Woman"; David Lynch colocou (contra a vontade do músico) a faixa "In Dreams" na trilha do filme Veludo Azul (1986); e em 1987 ele entrou tanto para o Hall da Fama dos Compositores de Nashville quanto para o Hall da Fama do Rock and Roll.

A atenção estava ali, só faltava um novo trabalho que mantivesse Orbison aos olhos do público.

Completamente consciente disso, ele começou a trabalhar em um novo álbum. Duas pessoas que ele havia conhecido naqueles tempos foram fundamentais, ambos produtores lendários: T. Bone Burnett e Jeff Lynne. Este último levou mais dois nomes de peso para o disco, Tom Petty e Mike Campbell.



Desse grupo, nasceram o hit "You Got It", "A Love So Beautiful", "California Blue" e outras. Bono, do U2, sempre conta uma história fantástica sobre como deu "She's a Mystery to Me" para Roy Orbison: segundo ele, depois de dormir ouvindo a trilha de Veludo Azul ele compôs a faixa, que mostrou aos companheiro de banda descrevendo como "algo do Roy Orbison" durante a passagem de som de um show. Logo depois da apresentação, quem bate na porta? O próprio cantor veterano, que perguntou: "Você tem alguma música para mim?".

Elvis Costello cedeu "The Comedians", que ele havia lançado em Goodbye Cruel World (1984). O tecladista Al Kooper e o baterista Jim Keltner, elogiados músicos de estúdio, participaram das gravações, que também tiveram a guitarra de George Harrison em "A Love So Beautiful". Ou seja, além de tudo, Mystery Girl plantou a semente do Traveling Wilburys, juntando Lynne, Harrison, Petty e Orbison (só Bob Dylan não entrou na brincadeira). 

O resultado foi um disco lindo, digno da carreira de Orbison. O relançamento recente? Faz o serviço contrário.

A nova caixinha tem, além do repertório do trabalho, oito versões demo (de "California Blue", Windsurfer", entre outras), um DVD com um documentário de qualidade questionável (visualmente, parece mais caseiro do que qualquer outra coisa) e o maior pecado de todos: uma música antiga finalizada recentemente pelos três filhos de Orbison, "The Way is Love".

Poderia ter dado certo? Poderia. Os Beatles fizeram isso em "Free as a Bird" e "Real Love" (produzidas por Jeff Lynne, inclusive). Mas o vocal original já tinha qualidade baixíssima - tanto na gravação quanto na performance. Nem o reforço de John Carter Cash, filho de Johnny Cash, salvou o resultado final. É um desastre completo, uma mancha que Orbison não merecia ter postumamente. Duvida? Ouça você mesmo, abaixo.



quarta-feira, 23 de julho de 2014

Boyhood: o Black Album dos Beatles existe mesmo - não, de verdade, existe MESMO!


 Como eu ainda não vi o já clássico Boyhood, de Richard Linklater, perdoe qualquer equívoco. Mas aparentemente no filme o personagem de Ethan Hawke cria o Black Album, um disco inexistente dos Beatles. Só que esse álbum existe, sim, há muito tempo!

Claro, no cinema ele é feito de músicas das carreiras solo dos quatro integrantes dos Beatles, em uma seleção muito boa. (clique aqui para ouvir)


 Na vida real, o Black Album é um dos discos piratas mais famosos do quarteto de Liverpool. Ele saiu originalmente em vinil triplo, em 1981. O repertório é de faixas registradas nos ensaios do projeto Get Back, que seria abandonado e, mais tarde, em 1970, lançado como Let It Be.

Estão ali músicas que nunca viram a luz do dia em formato oficial: covers de "Tennessee" (Carl Perkins), "The House of the Rising Sun" (tradicional, famosa com o Animals), "Stand By Me" (famosa com Ben E. King, mais tarde gravada por John Lennon, sozinho) e até algumas inéditas como "Watching Rainbows" e "Penina" (gravada por Carlos Mendes).

Só não leve muito a sério: as canções são executadas em clima de ensaio, muitas vezes pela metade e sem nada que chegue perto de ser uma afinação. Ainda assim, é um disco tão divertido que me lembro de ter "gastado" muitos fitas cassete ouvindo-o várias vezes. 

Ah, quase me esqueço da parte mais importante: dá para ouvir esse bootleg inteirinho no YouTube.



E para saber mais sobre Richard Linklater e Boyhood, ouça o podcast Além do Que Se Vê, que na edição número 10 falou muito sobre eles.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O intenso ritmo dos Beatles em 2014



Parece estranho para uma banda que está inativa desde 1970, mas os Beatles não param de lançar, relançar e anunciar novos projetos em pleno 2014, quase 45 anos depois de sua dissolução.

Três caixas distintas de discos agora estão no mercado:
  • A primeira, em vinil, reúne a discografia originalmente lançada em mono. Esse box, The Beatles in Mono, já existia em CD e, desde o lançamento de seu “irmão” estéreo, já era aguardado pelos fãs;
  • Em paralelo, chega em CD (inclusive no Brasil) a caixinha The U.S. Albums, com a discografia norte-americana da banda – bem diferente da britânica, a que foi oficializada a partir dos anos 80. Nos EUA, a maior parte dos álbuns dos Beatles tinha capa, nome e repertório musical diferentes. Em resumo, era uma zona! Aqui foram reunidos 13 CDs, com versões em mono e estéreo das faixas. A maior crítica dos fãs é que, olha o pecado, estes discos não são fieis ao que foi lançado originalmente nos anos 60 (este site tem mais detalhes). Para completar a confusão, parte desses CDs já havia sido relançada nos boxes The Capitol Albums vol. 1 & 2;
  • O lançamento mais tímido é The Beatles – Japanese Box, juntando os discos exclusivos do Japão. Sim, assim como os EUA, esse país também teve diferenças na discografia dos Beatles. A nova caixa só saiu por lá e tem 5 CDs, como nomes como Beatles! e Beatles No 2. Esse material estava fora de catálogo desde 1987, quando houve a padronização mundial da discografia do quarteto.

Outro relançamento é  a versão remasterizada de A Hard Day’s Night (1964, no Brasil chamado Os Reis do Iê-Iê-Iê), em blu-ray e DVD da prestigiosa Criterion Collection. No que ela se diferencia da versão que saiu inclusive no Brasil alguns anos atrás? Bom, para começar, aquela edição está fora de catálogo. A nova tem uma transferência em 4K, aprovada pelo diretor Richard Lester, e trilhas de som em estéreo (a original é mono) e 5.1 (criada por Giles Martin, filho de George Martin, produtor dos Beatles). E vários outros extras, detalhados neste link.

Também foi anunciado oficialmente o diretor de um documentário, que tem o nome provisório de The Beatles Live Project, focado nos anos em que a banda se apresentava ao vivo. O homem por trás das câmeras será Ron Howard, que entrevistará Paul McCartney, Ringo Starr e as viúvas Yoko Ono e Olivia Harrison. O projeto tem um site para coletar material raro que os fãs possam ter, e não há previsão de lançamento.

Esta é a lista – por enquanto.

Note que os discos norte-americanos e japoneses ainda não foram relançados em vinil, o que pode gerar um pacote futuro, assim como os singles e EPs da banda. O filme Let It Be, que mostra momentos tensos na gravação do disco de mesmo nome, continua indisponível em qualquer formato oficial.

A série documental The Beatles Anthology, dos anos 90, ainda não saiu em blu-ray. Outra opção seria juntar os clipes (ainda que esse termo não existisse na época) do quarteto de Liverpool em um volume, o que nunca foi feito.

Isso sem nem entrar no mérito dos possíveis lançamentos e relançamentos das carreiras individuais de Lennon, Starr, Harrison e McCartney. É o baú que não para de gerar material.  

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

O mundo perdido de David Bowie: disco, filme, peça, comerciais e músicas

 
Depois de andar pelos corredores do MIS, em São Paulo, a partir desta semana, você vai ter uma noção bastante concreta do impacto e da importância da carreira do ícone David Bowie.

Mas nesse longo caminho, cheio de curvas, algumas coisas se perderam pelos cantos escuros, onde ficaram esquecidas e empoeiradas - estas são algumas delas.


1. O disco perdido. O ar nostálgico de Bowie não começou em "Where Are We Now", do álbum The Next Day (2013). Lá por 2000/2001, o cantor regravou uma série de faixas do início de carreira (mais 3 novas composições) para um projeto que se chamaria Toy.

O disco tinha vários pontos altos, como a sexy "Baby Loves That Way" (de 1965, época do grupo Davy Jones & the Lower Third) e o single "I Dig Everything", também dos anos 60, que ganhou muito mais gás. E aí muitas coisas aconteceram. A gravadora EMI/Virgin enrolou o lançamento e Bowie se viu mais interessado em colocar na rua Heathen (2002), de inéditas, que começou a ser germinado nas mesmas sessões de gravação de Toy, e este último acabou engavetado.

Algumas faixas viram a luz do dia como lados-B, e o resultado final ficou mofando até 10 anos depois quando, no auge do isolamento de David Bowie, o álbum acabou caindo na internet;


2. Um garoto fã dos Beatles. Como praticamente todo mundo, Bowie é fã dos Beatles. E durante a carreira tocou muita coisa relacionada com o quarteto de Liverpool - "Across the Universe" (com John Lennon, em Young Americans), "Penny Lane", "Imagine", "This Boy" - e foi mais fundo, compondo "Fame" com Lennon e regravando "Try Some, Buy Some" (composta por George Harrison para Ronnie Spector).

Tem até um bootleg, Bowie Sings Beatles, com algumas dessas versões;


3. O poliglota. O caso mais conhecido é com a faixa "Heroes", que saiu em inúmeros formatos: inglês, alemão, francês e misturas de mais de uma língua.

Antes dela, "Space Oddity" teve versão em italiano. E, muitos anos depois, "7 Years in Tibet" foi gravada em mandarim! 


4. No palco por outro motivo. David Bowie leva o teatro a sério, e não só como forma de expressão dentro de shows e clipes. Ele atuou em The Elephant Man (1979), na Broadway, e foi elogiado por não recorrer a próteses de qualquer tipo;


5. Retrato trincado. Em 1974, a BBC produziu um documentário chamado Cracked Actor, acompanhando David Bowie na turnê norte-americana daquele ano, completamente maluco devido ao consumo constante de cocaína.

Um retrato completamente sem filtro de um período estranho e criativo do artista;


6. Dedicado ao indie rock. David Bowie é fã do Pixies faz tempo. Na época do Tin Machine, grupo que montou em uma tentativa de resgatar seu lado mais roqueiro, ele chegou a fazer uma versão ao vivo para "Debaser".

Anos depois, no show em que comemorou 50 anos, em 1997, chamou Frank Black para cantar "Scary Monsters (and Super Creeps)" e "Fashion" com ele. Lá em 2002, tornou tudo mais oficial gravando "Cactus" no disco Heathen.

Agora o Pixies, que não é bobo nem nada, já se ofereceu para ser a banda de acompanhamento do britânico caso ele decida sair em turnê;


7. Garoto propaganda. Com a volta de David Bowie ao mundo da música em 2013, a Louis Vuitton se deu bem tendo o porta-voz mais cool de todos os tempos.

Só que ele já anunciou saquê no Japão e sorvete, no começo de carreira, em comercial dirigido por Ridley Scott.

MUITO MAIS BOWIE



  • Informações sobre a exposição David Bowie, do MIS, aqui;




  • Texto que escrevi sobre 10 músicas de Bowie para o iG;




  • Como David Bowie tentou escrever "My Way" e acabou compondo "Life on Mars?";




  • Texto rápido que fiz para a Capricho sobre o disco The Next Day (2013)



  • segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

    Brian Epstein: a redescoberta do lendário empresário dos Beatles



    Na história dos Beatles sempre houve um grande debate a respeito de que seria “o quinto beatle”. Eu sou de uma tese simples: ninguém. Mas se for para entrar no clima, eu diria que é um posto dividido igualmente pelo produtor George Martin e o empresário Brian Epstein.

    A vida do segundo, que deixou uma segura posição de administração das empresas familiares para apostar no mundo desconhecido da vida artística, virou uma interessante HQ em 2013. Ela se chama, claro, The Fifth Beatle e foi escrita pelo produtor da Broadway Vivek Tiwary.


    A graphic novel usa de recursos surrealistas para mostrar os lados mais obscuros da personalidade de Epstein - que era gay em uma época absurda em que ainda era crime ser gay no Reino Unido - incluindo o vício em remédios prescritos. Bonito, inteligente e articulado, ele foi o protótipo do superstar manager, dando crias que até hoje se espalhando pelo mundo do entretenimento (pense em Scooter Braun, empresário de Justin Bieber, PSY e outros).


    “Fiquei assustado em descobrir como havia pouca informação sobre Brian Epstein e a administração dos Beatles”, escreve Tiwary no posfácio do volume - e ele tem razão, até hoje a única referência da vida e do trabalho do empresário é autobiografia A Cellarful of Noise (1964, atualmente só disponível em versão para Kindle) e alguns poucos livros menores. “Então mergulhei em uma pesquisa que durou mais de duas décadas.” (Também vale a pena ver o documentário que a BBC fez em 2010, The Brian Epstein Story)

    Epstein morreu aos 32 anos, em agosto de 1967, vítima de uma overdose de remédios para dormir. Os Beatles, já estraçalhados internamente, se enfiaram numa espiral de escolhas erradas, brigas internas e interesses distintos que os levaram a uma separação poucos anos depois.

    Quando li que um filme sobre a vida de Epstein seria feito, pensei: “tomara que seja baseado nos quadrinhos de Vivek Tiwary”. Por sorte, será mesmo – com roteiro escrito por ele e lançamento previsto para 2014 (e a liberação das músicas dos Beatles já aprovada). O ator para o papel é supostamente Benedict Cumberbatch – uma daquelas escolhas perfeitas e irrepreensíveis para contar uma das grandes histórias de bastidores do mundo da música.   

    terça-feira, 17 de dezembro de 2013

    Beatles tentam fugir da lei lançando coletânea de raridades no iTunes



    Até o momento de publicação deste post, continuava lá na iTunes Store brasileira o álbum Bootleg Recordings 1963, dos Beatles. Ao estilo da série Anthology, é um volume que junta outtakes, demos e gravações ao vivo na BBC. Mas ao contrário da Anthology, tem uma função meramente técnica: garantir que esse material inédito não caia em domínio público na Europa. Bob Dylan já tinha feito o mesmo com The 50th Anniversary Collection, que teve 100 cópias lançadas.

    Não vou me aprofundar nos detalhes de tal lei porque é um assunto chato demais. Basicamente ela diz que material inédito gravado há 50 anos - como esses registros do fab four - viram domínio público. Ela tem outras ramificações também, que até já colocaram o primeiro compacto dos Beatles, Love Me Do / P.S. I Love You, em domínio público. E tudo está sendo amplamente debatido na Inglaterra.

    Voltando ao álbum do iTunes, é um projeto que só interessa aos fãs mais radicais. E, mesmo assim, essa facção já conhece tudo que foi lançado ali. Só que segundo testes de conhecedores, a qualidade dessas 59 faixas colocadas agora no mercado digital é bem superior.

    Além disso, é a primeira vez que algumas dessas composições recebem lançamento comercial e oficial. As demos de "Bad to Me" (composição de Lennon e McCartney só lançada por Billy J. Kramer, em 1963) e "I'm in Love" (popularizada pelo The Fourmost, em 1963) são os grandes diamantes de Bootleg Recordings 1963.



    "Bad to Me" foi registrada pelos Beatles entre maio e junho de 1963 em um acetato, o único registro existente dessa versão. A faixa havia sido encomendada pelo empresário Brian Epstein especialmente para Kramer. O áudio do lançamento é rudimentar, não conseguiu fugir dos riscos do acetato, mas é superior ao que circulava em discos piratas (ouça acima).

    E como ela circulava por aí? Fácil: o disco único foi herdado pelo assistente de Epstein, Alistair Taylor, e foi leiloado na Sotheby's em 22 de dezembro de 1981. Por 308 libras. Não, você não leu errado: cerca de R$ 1.160.



    Com John Lennon ao piano na demo, cantando uma letra incompleta, "I'm in Love" tem uma melodia que não faz feio perto de clássicos dos Beatles. Os especialistas acham que ela vem de uma fita caseira gravada em 1963, mas há quem defenda que ela foi gravada já nos anos 70. O lançamento atual parece resolver esse detalhe. 

    domingo, 1 de dezembro de 2013

    Monty Python 2014: "Que diabo era aquilo?" ou "Descobrindo o Monty Python"




    Muitos anos atrás, eu fui visitar amigos em Porto Alegre. Eles eram (ainda são) pessoas muito mais inteligentes do que eu, então colocaram umas gravações (em VHS, se não estou enganado!) para eu assistir. Fiquei chocado, sem reação – não sabia se tinha gostado ou se achava engraçado. E não conseguia parar de ver.

    Que diabo era aquilo?

    Era o Monty Python’s Flying Circus.

    Claro, o Monty Python estava no meu radar fazia anos – pelos filmes, em especial. Mas o Flying Circus é outro universo completamente distinto que, suspeito, funciona muito bem para dois tipos de gente: as muito inteligentes e as muito burras. É um paradoxo (e ainda não sei direito a qual grupo pertenço).
    Os tempos seguintes foram uma maratona para me inteirar.

    Pausa para sugestão de material que ajuda a entender o Monty Python:






  • The Complete Monty Python’s Flying Circus 16 Ton Megaset.
  • São as quatro temporadas do programa de TV mais o especial alemão Monty Python's Fliegender Zirkus, o documentário (com novos quadros) Parrot Sketch Not Included e as gravações ao vivo Live at the Hollywood Bowl e Live at Aspen. Se você for comprar apenas um box de DVDs na sua vida, que seja este;






  • Almost the Truth - The Lawyer’s Cut.
  • Um documentário que faz para o Monty Python o que o Antholgy fez para os Beatles. São 6 horas detalhando cada passo do grupo. Está disponível em DVD no Brasil;





  • ThePythons Autobiography by the Pythons. O livro definitivo, acompanhando o documentário Almost the Truth;



  • TheMonty Python Channel. A explicação do canal oficial dos britânicos (e um americano) no YouTube é simples e direta: “Durante 7 anos, usuários do YouTube nos passaram pra trás, pegando dezenas de milhares de nossos vídeos e colocando no YouTube. Agora vamos virar a mesa”. São esquetes, entrevistas, vídeos promocionais e muito mais – tudo de graça.

  • Não é exagero dizer que o Monty Python é uma pedra fundamental da comédia. George Harrison ia mais longe, dizendo que o espírito – revolucionário, desbravador, ousado – dos Beatles havia reencarnado no sexteto. “Dizem que a história é escrita pelos vencedores”, escreveu Bob McCabe, organizador de The Pythons, na apresentação do livro. “Também acho que ela seja escrita por aqueles que ousam comentá-la, subvertê-la, fazer piada com ela.”

    E história também é o que o Monty Python acabou de fazer, lotando a O2 Arena para uma apresentação de reunião do agora quinteto (Graham Chapman foi vitimado pelo câncer, em 1989) em menos de 1 minuto – e prontamenteanunciando mais de uma dezena de outros shows. Acho que é razoavelmente seguro dizer quem estará na plateia da O2: todos os comediantes respeitáveis contemporâneos.



    Eu estarei lá, na terceira noite, para ver se o Michael Palin – meu python preferido – vai morder a língua e contradizer o que me falou no ano passado:

    “É, sempre tenho de responder a respeito de uma reunião. É quase como se não fosse possível satisfazer as pessoas com o que você já fez – e acho que já fizemos nosso melhor, culminando em A Vida de Brian [1979], nosso melhor filme, na minha opinião. Nosso último longa foi feito 1982 [O Sentido da Vida, lançado no ano seguinte] e não fizemos praticamente nada depois disso. E as pessoas ainda acham que basta usar uma varinha mágica e estaremos de volta fazendo a esquete do papagaio. Só que não temos mais o Graham Chapman, e é difícil entender que éramos um sexteto, um grupo incrível de seis pessoas que contribuíam como autores e performers. É como uma mesa de seis pernas, se você tirar uma não vai ser a mesma coisa. Sempre disse que não poderíamos nos reunir como Python sem o Graham – e ainda acredito nisso. Mas também acho que a dinâmica que permitiu que seis pessoas tão diferentes, que tinham filosofias de vida tão distintas, fizessem comédia só conseguiria se sustentar por um breve período de tempo. A força centrífuga do Python fazia os integrantes serem jogados para fora, mas enquanto nos seguramos juntos funcionou. Não acho que daria para juntar os pedaços e fazer algo novo.”
     Entre hoje e julho de 2014, quando o Monty Python voltará aos palcos, pretendo publicar aqui uma série de textos sobre eles.

    sexta-feira, 12 de outubro de 2012

    Beatles: BBC reconta a história de Magical Mystery Tour



    Com o relançamento de Magical Mystery Tour em DVD e blu-ray (olha o site, que foda), a BBC produziu o documentário Magical Mystery Tour Revisited - com entrevistas não só sobre a produção do filme de 1967, mas também sobre como ele foi extremamente mal recebido na época.

    O documentário de quase uma hora tem depoimentos dos fab four e de gente como Terry Gilliam (Monty Python), Neil Innes (Bonzo Dog Doo-Dah Band), Barry Miles, Martin Scorsese e muitos outros. E um monte de imagens inéditas, depoimentos da época, fotos raras... É a BBC fazendo um trabalho sério de colocar uma obra de arte dentro de um contexto histórico amplo.

    O resultado é tão interessante que é uma pena que o programa não esteja nos extras do relançamento. Pelo menos foi parar no YouTube, o que já ajuda.



    quarta-feira, 10 de outubro de 2012

    Fã reproduz lendário cartaz que inspirou Lennon a escrever música dos Beatles



    Esse é um tipo raro de paixão: o fã Peter Dean queria uma reprodução do pôster que inspirou a canção "Being for the Benefit of Mr. Kite!", do Sgt. Pepper's, dos Beatles, mas não encontrava uma reprodução fiel. Então ele fez uma pesquisa e reconstruiu o cartaz de forma impressionante, que ele mesmo detalha no minidocumentário abaixo.



    Também dá para comprar a reprodução! A má notícia é que ela custa cerca de R$ 800.

    Li em algum lugar (mas vou ficar devendo a fonte e a confirmação) que o cartaz original, comprado por John Lennon em uma loja de antiguidades, hoje está na coleção do Sean Lennon.

    [via Beatles Blog]

    sexta-feira, 5 de outubro de 2012

    It was 50 years ago today: primeiro single dos Beatles, "Love Me Do", completa meio século



    Em 5 de outubro de 1962 chegava às lojas britânicas "Love Me Do", o primeiro single dos Beatles. Na época, chegou ao posto 17 das paradas locais – mesmo com e empresário do quarteto, Brian Epstein, encomendando 10 mil cópias para a loja dele, em uma tentativa de manipular o sucesso. Relançado em 1982, foi até o número 4. Já nos EUA, dois anos depois, chegou ao topo. “’Love Me Do’ éramos nós tentando tocar blues”, explicou Paul McCartney ao escritor Mark Lewisohn no livro The Beatles Recording Sessions. “Ficou mais branco porque sempre fica. Somos brancos e éramos músicos de Liverpool. Não tínhamos finesse alguma para soar como negros. Mas ‘Love Me Do’ foi provavelmente a primeira coisa mais blues que tentamos fazer.”

    Mas não é isso o que importa: esse compacto, com “P.S. I Love You” no lado B, é a pedra fundamental da banda que mudaria a história do rock, da música e do mundo. E, ainda assim, os jovens britânicos de hoje não sabem direito o que é isso...

    Na época foram feitas três gravações de "Love Me Do": a primeira, com Pete Best na bateria. O produtor George Martin não aprovou, Best foi demitido (embora até hoje ainda haja muito debate sobre o motivo do desligamento do músico). Tentaram uma versão com Ringo Starr na bateria, mas Martin também não gostou. A solução foi convocar a baterista de estúdio Andy White (mas Ringo tocou pandeiro - ou, para os mais puristas, pandeireta). “Quando ele chegou, eu estava preparando a minha bateria”, contou White ao escritor Howard Sounes no livro Fab – A Intimidade de Paul McCartney. “Ele obviamente pensou: ‘essa não! Agora está acontecendo comigo!’.”

    “George Martin não achava que o Ringo fosse um bom baterista”, disse Paul McCartney a Mark Lewisohn. “Em todos aqueles discos de Lita Roza e Alma Cogan que estavam na moda logo antes de nós, os bateristas eram bons performers, então os produtores estavam acostumados a ouvir o grave do instrumento no lugar certo, encaixados no baixo como agora. Nós não ligávamos para isso.” E continua explicando a seleção de White: “Não estávamos acostumados com aquele tipo de baterista profissional como Andy White, e George obviamente achava que Ringo estava [tocando] um pouquinho fora do tempo, um pouco sem manter o ritmo.” Segundo McCartney, “foi muito humilhante” para Ringo Starr tocar apenas pandeiro na gravação. Por outro lado, o engenheiro de som Norman Smith indica outra possibilidade para a troca de bateristas: o próprio baixista do grupo. “Tenho impressão de que Paul McCartney não estava satisfeito com a bateria de Ringo, e achava que poderia ser melhor”, revelou em The Beatles Recording Sessions.

    O vai-e-vem de bateristas não foi o único ponto de tensão nas gravações de “Love Me Do”. Antes disso, os Beatles já haviam rejeitado a sugestão de George Martin, que acreditava que o quarteto deveria gravar a faixa “How Do You Do It?”, composta por Mitch Murray. E, mais tarde, já nas gravações de “Love Me Do” no estúdio Abbey Road, em Londres, McCartney teve um pequeno ataque de pânico ao ser convocado a cantar parte da letra, já que John Lennon estaria tocando gaita. “Estávamos fazendo ao vivo, não havia overdubbing de verdade”, explicou McCartney a Lewisohn. “E de repente me deram um momento gigantesco, no qual tudo parava, o foco ia para mim e eu [em uma voz tremida]: ‘love me doooo’. Ainda consigo ouvir a tremida quando escuto a gravação! Eu estava apavorado.”

    A versão com Best só saiu no primeiro volume de Anthology, a com Ringo está no single e em Past Masters (e na coletânea Rarities, inédita em formato digital) e a terceira, com White, é a de Please Please Me (1962, o primeiro álbum da banda). Uma curiosidade: depois de 1963, a EMI decidiu que a versão com Andy White na bateria seria a única opção nas reedições do single. A solução para garantir isso? A fita master com Ringo na bateria foi destruída.

    Décadas mais tarde, Ringo Starr lançaria uma versão solo - no disco Vertical Man (1998) - para tirar um barato da situação.



    Na versão de Ringo, Steven Tyler toca gaita e faz backing vocals. Uma vingança bem humorada.

    A EMI havia planejado uma reedição comemorativa do single "Love Me Do" em vinil, como aperitivo do lançamento das versões remasterizadas dos álbuns nesse formato, no mês que vem - mas aparentemente houve um erro e o disquinho foi cancelado e retirado da venda no site dos Beatles. O motivo: a gravadora errou e prensou os singles com a versão de Andy White, não a de Ringo. Aos 50 anos, "Love Me Do" ainda faz história.