Muitos anos atrás, eu fui visitar amigos em Porto Alegre.
Eles eram (ainda são) pessoas muito mais inteligentes do que eu, então
colocaram umas gravações (em VHS, se não estou enganado!) para eu assistir.
Fiquei chocado, sem reação – não sabia se tinha gostado ou se achava engraçado.
E não conseguia parar de ver.
Que diabo era aquilo?
Era o Monty Python’s Flying Circus.
Claro, o Monty Python estava no meu radar fazia anos – pelos
filmes, em especial. Mas o Flying Circus é outro universo
completamente distinto que, suspeito, funciona muito bem para dois tipos de gente:
as muito inteligentes e as muito burras. É um paradoxo (e ainda não sei direito
a qual grupo pertenço).
Os tempos seguintes foram uma maratona para me inteirar.
Pausa para sugestão de material que ajuda a entender o Monty
Python:
The
Complete Monty Python’s Flying Circus 16 Ton Megaset.
São as quatro
temporadas do programa de TV mais o especial alemão Monty Python's
Fliegender Zirkus, o documentário (com novos quadros) Parrot
Sketch Not Included e as gravações ao vivo Live at the
Hollywood Bowl e Live at Aspen. Se você for
comprar apenas um box de DVDs na sua vida, que seja este;
Almost
the Truth - The Lawyer’s Cut.
Um documentário que faz para o
Monty Python o que o Antholgy fez para os Beatles. São 6
horas detalhando cada passo do grupo. Está disponível em DVD no Brasil;
ThePythons Autobiography by the Pythons. O livro definitivo,
acompanhando o documentário Almost the Truth;
TheMonty Python Channel. A explicação do canal oficial dos britânicos
(e um americano) no YouTube é simples e direta: “Durante 7 anos, usuários do
YouTube nos passaram pra trás, pegando dezenas de milhares de nossos vídeos e
colocando no YouTube. Agora vamos virar a mesa”. São esquetes, entrevistas,
vídeos promocionais e muito mais – tudo de graça.
Não é exagero dizer que o Monty Python é uma pedra
fundamental da comédia. George Harrison ia mais longe, dizendo que o espírito –
revolucionário, desbravador, ousado – dos Beatles havia reencarnado no sexteto.
“Dizem que a história é escrita pelos vencedores”, escreveu Bob McCabe,
organizador de The Pythons, na apresentação do livro. “Também
acho que ela seja escrita por aqueles que ousam comentá-la, subvertê-la, fazer
piada com ela.”
E história também é o que o Monty Python acabou de fazer,
lotando a O2 Arena para uma apresentação de reunião do agora quinteto (Graham Chapman
foi vitimado pelo câncer, em 1989) em menos de 1 minuto – e
prontamenteanunciando mais de uma dezena de outros shows. Acho que é razoavelmente seguro
dizer quem estará na plateia da O2: todos os comediantes respeitáveis
contemporâneos.
“É, sempre tenho de responder a respeito de uma reunião. É
quase como se não fosse possível satisfazer as pessoas com o que você já fez – e
acho que já fizemos nosso melhor, culminando em A Vida de Brian
[1979], nosso melhor filme, na minha opinião. Nosso último longa foi feito 1982
[O Sentido da Vida, lançado no ano seguinte] e não
fizemos praticamente nada depois disso. E as pessoas ainda acham que basta usar
uma varinha mágica e estaremos de volta fazendo a esquete do papagaio. Só que
não temos mais o Graham Chapman, e é difícil entender que éramos um sexteto, um
grupo incrível de seis pessoas que contribuíam como autores e performers. É
como uma mesa de seis pernas, se você tirar uma não vai ser a mesma coisa.
Sempre disse que não poderíamos nos reunir como Python sem o Graham – e ainda
acredito nisso. Mas também acho que a dinâmica que permitiu que seis pessoas
tão diferentes, que tinham filosofias de vida tão distintas, fizessem comédia
só conseguiria se sustentar por um breve período de tempo. A força centrífuga
do Python fazia os integrantes serem jogados para fora, mas enquanto nos
seguramos juntos funcionou. Não acho que daria para juntar os pedaços e fazer
algo novo.”
Entre hoje e julho de 2014, quando o Monty Python voltará aos palcos, pretendo publicar aqui uma série de textos sobre eles.