terça-feira, 15 de julho de 2014

Monty Python enfrenta a reta final

Dei um pulo em Londres, onde vi duas apresentações do Monty Python - nos dias 02 e 05 de julho. Foi mais ou menos assim.

Hoje começa a reta final dos últimos shows do Monty Python, algo nada menos do que histórico. O grupo – reduzido a quinteto depois da morte de Graham Chapman, em 1989 – já fez parte das apresentações de Monty Pyhton Live (mostly) – One Down, Five to Go na O2 Arena, em Londres, e jura que esse pacote de 10 apresentações (para 15 mil pessoas por noite) será o último suspiro do mais celebrado grupo de comédia de todos os tempos.

O show tem direção de Eric Idle, que assume postura de líder, e é um grande resumo da história do Python. Exatamente por isso, não deixa de ter certa melancolia. No palco, o espetáculo é dividido em duas partes. Na primeira, os comediantes começam com o esquete das lhamas, seguido de “Four Yorkshiremen”, onde relembram um passado crescentemente exagerado em termos de tragédia – e aqui, com longas falas, os integrantes tropeçam loucamente na entrega das falas, para delírio da plateia.

A noite continua com “Penis Song (Not the Noel Coward Song)”, que descamba para um musical grandioso, ao estilo da Broadway – algo que ainda ocorreria diversas vezes ao longo da noite, dando um estranho clima de performance mista para o show.

O ponto alto da primeira metade é certamente a desembocadura de “Vocational Guidance Counseller” (o quadro no qual Palin faz teste vocacional com Cleese) em “Lumberjack Song”. De forma impressionantemente deliciosa, Palin brinca com a ansiedade do público ao improvisar a conexão “mas na verdade eu queria mesmo ser...”. Em alguns shows ele apenas pausa dramaticamente, em outros ele simplesmente emenda uma frase aleatória, antes de começar a música do lenhador que gosta de se vestir de mulher.



Com o fim da parte inicial (encerrada por “I Like Chinese”, de 1980, que, em 2014, certamente faz o espectador pensar: “essa música não é... meio... um pouco... racista?”), um intervalo de 20 minutos.

A parte dois tem momentos mais memoráveis ainda. Apesar do excesso de vídeos antigos mostrados nos telões – presumidamente para que os comediantes, já com mais de 70, se preparem -, é bem mais ágil. Estão lá os esquetes “Nudge Nudge”, “Spanish Inquisition” e uma sequência de sucessos que mais parece um arrastão.



Destaque para a versão incrivelmente bem adaptada de “Blackmail”, quadro no qual Palin chantageia famosos. No palco da O2, foram recebidos convidados especiais surpresa como Stephen Fry e Matt Lucas (Little Britain), que assim puderam pagar tributo ao Monty Python e sua gigantesca influência no universo da comédia.

 Um momento constrangedor desequilibra o que seria uma goleada: quando o telão mostra Chapman cantando “Christmas in Heaven” e, no palco, um ator – não um dos comediantes do quinteto - surge caracterizado como o mesmo personagem e cantando a canção ao vivo. É uma daqueles momentos que realmente lembram um jogo de futebol com estádio lotado: você escuta o lamento da plateia com a cena, seguido de um silêncio absoluto até o fim do número.

 Mas o encerramento da apresentação é bem mais informal, com o Monty Pyhton cantando “Always Look on the Bright Side of Life” no palco. Porque, claro, em parte é isso mesmo que os fãs esperam: simplesmente ver John Cleese, Michael Palin, Eric Idle, Terry Jones e Terry Gilliam no mesmo palco. Depois da saída, duas imagens no telão: "Graham Chapman, 1941-1989" e "Monty Pyhton, 1969-2014". E uma singela mensagem final:



 O Fim?

Essa reunião começou a ser esboçada em 2010, com o espetáculo Not the Messiah (He’s a Very Naughty Boy), quando Idle e o maestro John Du Prez (colaborador desde os tempos de A Vida de Brian, 1979) misturaram comédia a O Messias, oratório de Händel. A ideia era comemorar os 40 anos do grupo, mas John Cleese não se interessou em participar.

Anos depois, tudo se encaixou: Idle, Cleese, Michael Palin, Terry Gilliam e Terry Jones concordaram que seria um bom momento para um último agradecimento aos fãs e, claro, também aproveitar para faturar mais um pouco com o legado do Monty Python.

E acabou mesmo? Não é a última vez que o Monty Pyhton diz que nunca mais se reunirá. Para o futuro próximo, o grupo se reunirá em 2015 – sem Cleese – em Absolutely Anything, filme dirigido por Jones e que também tem Simon Pegg e Robin Williams no elenco. Em uma entrevista coletiva para divulgar Monty Pyhton Live (mostly), o quinteto se mostrou incerto quanto à possibilidade de mais shows, e Cleese chegou a mencionar uma vontade inicial de também se apresentar nos Estados Unidos. Em um especial da BBC sobre a reunião, Monty Python: And Now For Something Rather Similar, Idle disse que Palin não aceitou fazer mais do que os 10 shows da O2 Arena.

De certo mesmo há a transmissão do último show, dia 20 de julho, ao vivo para cinemas de várias partes do mundo (sem o Brasil, infelizmente). Depois disso, em novembro, o especial será lançado em DVD e blu-ray.

Altos e Baixos 

Alguns detalhes de Monty Python Live (mostly):







  • A atriz Carol Cleveland participa, mas o músico Neil Innes não. Ele andou se estranhando com Eric Idle por direitos autorais de uma versão que ele criou de “Always Look on the Bright Side of Life” que teria sido usada sem a permissão dele no musical Spamalot;






  • A barraca de merchandising tem uma grande variedade de produtos novos: de camisetas e agasalhos a chaveiro e o chapéu de Gumby – que é, vamos falar a verdade, apenas um guardanapo amarrado vendido a preço de ouro;





  • Entre os (muitos) vídeos antigos exibidos nos telões estão “International Philosophy” e “The Fish Slapping Dance”. Um novo, com participação dos físicos Stephen Hawking e Brian Cox, também está lá, como parte de “The Galaxy Song” (spoiler: sim, Hawking canta!);




  • Durante os shows, Terry Jones parece tenso e sério. John Cleese mal consegue conter os surtos de riso. Michael Palin e Eric Idle são os mais desenvoltos, com maior aptidão para o improviso e conseguem entregar o texto com competência absoluta. E Terry Gilliam está engraçadíssimo, mesmo quando está voando com as tripas expostas.
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