sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Plastic City começa bem, mas se perde na favela



Quando Plastic City foi exibido em Cannes, as críticas apontaram os dedos para os lugares errados: o tigre branco na floresta tropical, a neve em São Paulo. Na verdade, tudo isso é compreensível dentro do universo do longa-metragem de Yu Lik-wai - mesmo porque esses fatos são explicados com ações ou justificados por cenas de fantasia.

Se a mistura China/Brasil já causou esses mal entendidos, o diretor vai ainda mais longe ao escalar o japonês Jô Odagiri como o protagonista Kirin - sendo que o país de Mao e o Japão são inimigos históricos e, curiosamente, são nivelados pelo preconceito brasileiro, onde todo mundo vira "japa".

As virtudes da história de Plastic City chamam a atenção: Anthony Wong (mestre do cinema de Hong Kong, de longe o melhor ator em cena) é Yuda, um chefão do contrabando de produtos falsos chineses em São Paulo. Anualmente ele tem de lidar com os políticos locais em ações antipirataria que nunca levam a nada (lembra alguma coisa? Todo fim de ano...). Só que o lado bom do trabalho fica por aí.

Como quase toda estreia de diretor, o filme de Lik-wai tem muitas deficiências. A dublagem do português de Kirin é tão irritante quanto sofrível (e, em alguns momentos, as partes em chinês também sofrem desse mal); alguns dos coadjuvantes brasileiros são atores abaixo da média; certas cenas abusam da boa vontade do espectador (uma, em especial, mostra a revolta da população pobre contra a repreensão da polícia ao comércio de produtos piratas - e o que eles fazem? Uma espécie de performance que mistura parkour a grafite); a personagem de Tainá Müller fica deslocada, quase sem propósito dentro da trama; e tudo desgringola mesmo quando o núcleo chinês vai parar na favela. Aí - mesmo levando a tal liberdade fantasiosa do filme em consideração - fica difícil levar a história a sério.

Existem dois cortes de Plastic City, um com duas horas e outro com 95 minutos. Este último já foi lançado em DVD na Ásia e é o que estreia no Brasil hoje.

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