10/06/2008 - 14:15h
O caminho lento e constante de Céu
O disco de Céu – que leva só o nome dela e está saindo agora na Inglaterra, pela Six Degrees - foi lançado no Brasil no longínquo 2005. Tudo o que aconteceu na carreira da cantora só faz esse tempo parecer ainda maior. Quando chegou ao mercado norte-americano, via HearMusic (a gravadora da Starbucks, a mesma de Paul McCartney), o trabalho chegou ao número 56 do Top 200 da Billboard (além de ficar em quarto na categoria “independentes” e em primeiro na “heatseekers”) – nada mau para uma brasileira que canta em português.
Foi a mesma coisa – em graus diferentes – em outros lugares onde o álbum foi lançado: França, Holanda e Canadá. E como uma brasileira de um selo independente chegou a tantos lugares, todos tão diferentes? A culpa é dos instrumentos “internéticos” como o MySpace (ela diz já ter recebido até mensagens de fãs chineses!), que acabaram rompendo a barreira da excentricidade.
Na reta final da primeira gravidez, a cantora não pára. Lança o disco de estréia na Inglaterra e já começa a ter idéias para o que virá a ser seu segundo trabalho. Na entrevista abaixo, feita para a revista Jungle Drums, Céu fala de tudo isso e mais um pouco.
Como é ainda estar falando sobre o seu disco, três anos depois dele ter saído?
Ah, eu ainda estou falando porque não consegui chegar a todos os lugares. No Brasil mesmo eu comecei a tocar mais agora. Então é esquisito mas também é normal. É característico de quem faz um caminho lento.
Você acha que o seu caminho é lento?
É e não é. Ele foi muito mais rápido do que eu imaginava, em termos de resposta.
A impressão que tenho é de que, quando o disco foi lançado, muita gente falou de você e muito rápido.
Foi, eu nem imaginava. Mas é lento porque eu restrições para levar o show a certos lugares, a minha banda. Eu coloquei certo nível para o show rolar. Não é alto, é só a banda. Não tem cenário, técnico de monitor. Eu só não queria deixar de levar os músicos que tocam comigo. Eu cheguei a fazer uns pocket shows, mas com poucas músicas. Era mais para divulgar para a imprensa, em rádio.
Quais sensações te vêm à cabeça quando você pensa nas gravações do disco? Com esse distanciamento, como você vê esse trabalho?
Com muito carinho. Respeito pelo Beto, o produtor. Eu tinha muito na minha cabeça o que eu não queria, além das músicas. Eu sou muito teimosa, a gente fez e refez. Para gente entender o que queríamos, demorou um pouco. Também tivemos limite de horário de estúdio, que era usado para gravação de publicidade. Tínhamos de usar umas brechas na madrugada. Foi um trabalho intenso.
Quanto tempo demorou, entre composição e gravação?
Uns dois anos. Foi bastante. Eu comecei a escrever com 18 anos, sem nem saber que eu ia fazer isso. Começou a rolar. Cheguei para o Beto e para o Antonio Pinto, que produziu uma faixa, e disse: “Vamos fazer um disco.” Eles disseram que não tinham tempo, que estavam cheios de trabalho. Nesse tempo eu acabei me maturando em termos de composição, fui estudando: estudei teoria, piano, toquei na noite… Me joguei na roda! O processo foi esse. Foi entre um ano e meio e dois anos. Eu e o Beto temos um processo muito lento. E não é assim, tudo muito à risca: a gente marcava de manhã e só aparecia à tarde… [risos]
Perguntei isso da sensação porque muito artista deixa de gostar do trabalho depois de certo tempo.
Passa a ter ódio! [risos] Não escuto mais o meu disco, antes eu escutava. Agora faço muito show e já virou outro som para mim. Eu gosto ainda. Claro que tem umas horas que você fica de bode. Daí vem a vontade de gravar um ao vivo. Eu mesma nunca gostei, acho chato. Agora, na prática, comecei a entender isso.
O que você achou da recepção do disco no Brasil? Eu notei duas segmentações de matérias: as que te colocavam como “nova musa da MPB” e as que falavam sobre “o novo samba”. Óbvio que a recepção não foi só assim, mas essas duas abordagens me pareceram as mais recorrentes.
Comigo esse lance do samba só aconteceu muito no começo. Nas primeiras críticas, rapidíssimo se dissipou. Eu gosto muito de samba, mas meu trabalho não é de samba. E o Brasil tem isso, de sempre querer grandes intérpretes exatamente porque já as tivemos no passado. Não me considero uma. [risos] Nunca quis isso, não é minha paixão esse lance de diva, essa coisa visceral. Minha relação é mais com a música, sinto-me mais uma musicista. Claro, acabei caindo na coisa das novas cantoras. Não me incomodo, muitos talentos vieram dessa geração. Fico feliz.
E a recepção gringa? Até pouquíssimo tempo música brasileira no exterior era world music – mesmo que não fosse. Aliás, em quais países o seu disco saiu?
França, Holanda, Canadá e Estados Unidos. Foi bem diferente [em cada lugar]. É engraçado, né? O Brasil faz uma coisa finíssima: a bossa nova, o Baden Powell, o Villa-Lobos… E ainda assim colocam o abacaxi na nossa cabeça! Adoro a Carmen Miranda, o abacaxi foi só uma observação! Mas é normal que isso aconteça. Deve ter com o fato de não ser em língua inglesa. Não sei, não entendo. Sei que foi muito diferente o modo como o disco foi recebido. Adorei os franceses. Eles têm uma curiosidade real a respeito da música, além do que está sendo bombardeado nas paradas. Imagina: eu estava fazendo shows na Galeria Ouro Fino, aqui em São Paulo, e fui chamada para fazer o JVC Jazz Festival, um festival cabuloso. Eles são muito abertos. O fato de eles terem curtido mais abriu para os outros.
O que ocorreu nos EUA foi uma surpresa? Porque é um mercado que continua fechado.
Eu me arriscaria a dizer que é o mais fechado, eles são muito restritos à música americana. Eu recebi essa proposta e achei muito legal, mas muito estranho! “Tome um café e compre um CD”! Mas fui ver e não era nada disso, era um standzinho simples, bem colocado. Eu não estava esperando isso.
Deve ser difícil administrar todas essas carreiras diferentes, em países diferentes. Você acha que o Brasil é o seu público principal?
Eu não penso assim. Honestamente minha prioridade não é essa. E respeito quem pensa. Eu só faço um som. Depois vejo quem vai gostar. Tem muito velho que gosta, criança. Eu poderia ter ficado nos EUA, quando morei lá. Estava em uma época super-produtiva, dando tudo certo. Mas eu não queria fazer um disco brasileiro gringo. Eu sou brasileira e trago minhas raízes muito fortes. Curto coisa velha, basicamente! [risos] Não sei quem é o meu público, mas tento dar atenção para as pessoas daqui. Também não quero fazer muito show, não é minha prioridade na vida. Minha prioridade é… Viver! [risos]
É tipo como você fez com o CD, um trabalho lento.
É. Gosto de ter tempo para chegar em casa, preciso voltar sempre para a minha matriz. Minha turnê mais longa teve um mês. Já fiquei 20 dias na França, morando em um ônibus. Passou essa fase, não quero! Não é o meu estilo.
O que mais você não quer para a sua carreira?
Eu tenho certo padrão, mas muitas coisas pesam nisso. Por exemplo, se eu estou trabalhando muito e não vou conseguir tocar naquela rádio, paciência. Tento me preservar, no trabalho e na vida pessoal. Tento equilibrar. O que mais? Não gosto de programa que faz playback. Tento preservar um pouco minha imagem. Gosto de ficar mais na minha. Eu adoraria ir à Hebe e ao Raul Gil, mas quero ficar mais conhecida pela minha música – não pelo o que tenho a dizer. Isso é o que eu mais saquei.
Quais são os próximos passos? Não vai ter turnê de divulgação na Inglaterra?
Não, meu próximo projeto está aqui na minha barriga! Já comecei a fazer meu segundo disco, tem o embrião. É como no primeiro: comecei, parei. Não consigo matar o disco em três meses. Fico até o final do ano dedicada ao meu bebê e depois vejo.
Mas então você não divide muito a sua vida pessoal e o trabalho, já que vai parar mas está pensando e fazendo um segundo disco.
Não. Tem a ver com fato de eu ser meio independente. Os contratos de gravadoras grandes exigem datas, mas eu sou assim, mais relaxada.
Já dá para sentir como vai ser o novo trabalho?
Um pouco. Está bem no começo, tenho algumas composições já prontas na cabeça. Mas é difícil te dizer como vai ser.
O seu momento, grávida, influencia no clima das músicas?
Com certeza deve influenciar. A gravidez é um momento muito introspectivo e isso vai reverberar. Não sei, acho que inspira. Gosto de escrever na madrugada, sempre gostei. É quando tudo fica quieto. Várias doideiras me vêm à cabeça, aí escrevo.
Como é esse processo?
Não tem uma coisa fixa. Às vezes faço letra, às vezes letra e música. Pode ser no violão. É bem eu, caótico. A composição não muda no estúdio. Penso muito nos arranjos. Às vezes uma linha de baixo me faz pensar em uma música. A partir disso, surge outra coisa por cima. Depois a linha de baixo pode nem entrar na música, mas tudo surgiu dela. É meio confuso.
Quais instrumentos você toca?
Para falar bem a verdade, nenhum. Já toquei piano, sei me encontrar nele, mas peguei bode e larguei. Meu processo é muito intuitivo. Meu pai me fez ouvir muito música, incorporei.
Enviado por Paulo Terron

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