segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Oito anos sem Sabotage: leia a entrevista perdida do rapper



Em uma dessas coincidências curiosas, encontrei uma entrevista que fiz com o Sabotage em maio de 2002. A matéria publicada era sobre a carreira dele no cinema, como consultor (e fazendo uma ponta) em O Invasor e ator em Carandiru. E achei também vários trechos inéditos, publicados aqui pela primeira vez, neste aniversário de 8 anos da morte do artista.

Muitos dos músicos que se arriscam no cinema acabam quebrando a cara. Mas esse não é o caso do rapper Sabotage. Um dos motivos é que ele acaba sempre interpretando ele mesmo – ou pelo menos um reflexo de quem é na vida real. "Eu posso errar as palavras, posso dizer que drumi mal, mas não deixo de ser eu", conta. O músico fez sua estréia cinematográfica em O Invasor, do diretor Beto Brant. "Ele viu um vídeo em que eu cantava com o [grupo] RZO. E ele pensou 'esse cara é louco'". Mas a insanidade pareceu lógica para o diretor de Ação Entre Amigos e Os Matadores, que convocou Sabotage para uma entrevista. "Eu estava esperando para falar com o Beto e disse 'vou fumar um baseado'. A Mariana Ximenes [que também participou do filme] olhou para mim e disse: 'você é louco! Vai fazer isso aqui?'. Eu respondi: 'minha mãe já morreu e sabia que eu fumava, então vou fazer isso aqui mesmo!'", lembra, rindo. Durante a conversa, Brant apresentou o músico a Paulo Miklos, cantor do Titãs que encarnou Anísio, o protagonista de O Invasor. "Eu não conseguia parar de rir da cara dele!", diz Sabotage. Apesar da descontração, o rapper fez questão de palpitar no roteiro da produção, apontando erros em relação à vida na periferia. Acabou consultor técnico e "treinador" de Miklos na área de fala e gírias.

O roteiro da fita foi escrito por Brant e Renato Ciasca em parceria com o autor do livro O Invasor, Marçal Aquino. Para Sabotage, Aquino reflete com perfeição o dia-a-dia da periferia. "Ele não esconde nada, eu acho isso muito bom. Eu li aquele livro dele, o Faroestes e é veridicão. Aquela placa com os tiros na capa...", contou, lembrando que o escritor é também uma inspiração. "Eu quero chegar à idade dele do jeito que ele é. Eu chamo ele de garotão. Ele é ligado, comenta as coisas que viu. Por isso faz os livros daquele jeito." O cantor, agora convertido a ator, passou a integrar o meio do cinema. "Falam pra mim: 'Sabotage, você é diferente!' [das pessoas da periferia]. E eu digo que não. A diferença é que eu já perdi o meu irmão, minha mãe, muita gente que eu gostava. Então hoje eu sei me controlar. Sei estar em uma festa do Hector Babenco, do Beto Brant, mas sei estar em uma festa de um traficante também." Durante as filmagens de O Invasor, Brant teve a prova da influência que o rapper tem na periferia. "O Beto me falou: 'Sabota, aqui no mesmo lugar onde nós fizemos este filme, já me levaram todo o equipamento antes'. Porque é assim: a periferia sabe quem está explorando ela."

Apesar das tentações da "vida fácil" de festas e badalação, o artista continua com os pés no chão. "Comecei a frequentar umas festas do pessoal de cinema, mas não dá. A minha realidade é outra. Tenho que me preocupar em escrever música, ensaiar, ver o que meus filhos precisam. Não posso ficar nessa vida. É muito bom, mas não quero." Ele sente que tem um compromisso com o rap: Sabotage acredita que não pode abandonar a vida que o levou à música – mesmo tendo visto de perto uma vida tão distante da que ele leva. "Tenho inclusive uma música, do próximo CD, que fala que o itinerário do playboy é do McDonald's ao Café Photo [casa noturna paulistana freqüentada por garotas de programa]. Eu e meu irmão [que morreu vítima do crime] guardávamos carros em um restaurante. Chegávamos lá pelo meio dia, pra comer os restos do que o playboy não comeu, e guardávamos carros até as dez da noite – pra levar dinheiro pra casa sem a nossa mãe perceber o que estávamos fazendo. Senão a gente ia apanhar mesmo! E eu vi que era assim mesmo, eles iam do McDonald’s ao Photo."

Uma coincidência levou Hector Babenco – diretor de Carandiru (baseado no livro de Dráuzio Varella, Estação Carandiru) – a conhecer o músico. Durante as filmagens o diretor comentou com Brant sobre um preso, condenado a 29 anos de cadeia, o Velho Monarca. Com a descrição, descobriram que ele era tio de Sabotage. "A mesma idade que eu tenho aqui [29 anos], ele vai passar lá [na cadeia]", lembra o rapper. Contato estabelecido, ficou determinado que o artista interpretaria o personagem Fuinha, além de cuidar de músicas para a trilha sonora do filme e do making of . E a parceria com Babenco foi além, gerando, inclusive, uma música. "Imagina ele falando pra mim 'águas turvas', com aquele espanhol! Pra pôr isso numa rima foi foda, mas ficou muito classe!."

Em Carandiru, Sabotage também voltou a atuar como consultor técnico. Foi ele quem conseguiu os figurantes para as cenas que exigiam um número grande de pessoas. "Se tiver três mil pessoas no filme, eu levei mil e quinhentas. Era incrível como as pessoas iam comigo [participar das filmagens], mas não com eles. Não tem aquela formiguinha que vai lá, acha o açúcar, e chama as outras? Então, é igualzinho." O rapper admite que a produção teve problemas depois que as partes dele já haviam sido filmadas. "Coloquei lá gente do bem e gente do mal. Se eu não estava ali pra olhar, a galera já começava 'opa, vou levar este cinzeiro'. Foi duro de roer!", explica, lembrando também que não tolera pessoas que tentem explorar seus companheiros. "Eu tô de olho nessas pessoas. Se meu amigo atuou, vai receber o dinheiro dele."

Uma possível superexposição não assusta Sabotage, que tenta se manter fiel à periferia – criticando inclusive a postura de um companheiro famoso do rap, Xis. "Posso fazer um programa de TV, mas não quer sair e ser amarrado em um tronco e levar chicotadas. Quero ir lá pregar a revolução, mostrar o que é ser preto. Não vou sair duma Casa dos Artistas pra fazer comercial do Barateiro." Mas ele diz ser amigo do ex-participante do reality show do SBT, e que sempre dá conselhos a ele. "Ele é meu irmãozão, eu digo pra ele: 'Xis, se nós estamos aqui hoje, foi o rap que colocou. Então abre o olho'."

  • Sobre a carreira musical: "Eu me via naquela música 'O Meu Guri', do Chico, e me imaginava cantando. (...) Em 1985, eu escrevi uma música e ensaiei, mas só pra mim mesmo. Eu usava o solo de uma música do Léo Jaime pra cantar a minha. (...) Eu ouvia Malcolm MacLaren, Afrika Bambaataa, Barry White. Me identifiquei muito com o White, porque, como ele, eu também perdi meu irmão para o crime. (...) Desde pequeno eu tinha essa mania de andar com um caderninho pra escrever música. As pessoas diziam: 'Meu, você é louco! Vamos puxar uma carroça, pegar um papelão, jornal, levar um dinheiro pra casa.' Hoje encontro essas pessoas e elas pedem desculpas: 'Meu, eu não devia ter te falado aquilo.' Eu nunca me revelava [musicalmente] pra ninguém. Aí em 88, 89, me inscrevi em concursos de rap. Num deles, no salão Zimbábue, conheci o [Mano] Brown e o Ice Blue [ambos do Racionais MC's]. Nesses concursos você não podia ser muito 'a verdade dói', e eu estava cantando uma música muito contundente, chamada 'Na City'. A galera não acreditava que aquele moleque tinha feito a música. (...) Entrei [em estúdio] várias vezes pra gravar com os grandes nomes: Thaíde, Planet Hemp, Pavilhão 9, Possemente Zulu, Paula Lima... (...) Um dia um amigo me chamou para ver um show e me disse que [aquele que veríamos] "era eu amanhã". Cheguei lá e era o Luiz Melodia. O cara negão, vestido de roupa fluorescente, e eu pensei: 'Mano, sou eu amanhã! É assim que eu vou ser quando for mais velho!.'

  • O rap no Rio e em São Paulo: "Eles encaram a realidade, não é uma coisa 'vou brincar na praia'. Aqui em São Paulo é mais a realidade nua e crua: um cara roubando toca-fitas, um rapaz seqüestrando uma menina por causa de dez reais, outro que disparou a arma contra o próprio irmão... A gente tem que saber que nem todo mundo é igual a todo mundo. E o mundo não vai ser do jeito que a gente pensa. A música tem isso também."

  • Público e atitude: "Meu público é de pessoas carentes. Como eu vou usar roupas caras? Parei de usar essa jaqueta. Só uso camiseta e tento esconder. Você sente que o seu amigo quer ser igual a você, quer seguir o seu caminho. Você tem que pegar mais leve."

  • Realidade: "É muito fácil você rir pra deixar uma pessoa feliz. Difícil é você falar a verdade e deixar ela triste, mas pra depois ela levantar a cabeça e seguir."

  • Música: "A música é um resfriado: todo mundo pega, mas passa rápido."

  • Investimento: "Tenho planos e vou ajudar uma criançada do bem. Já sou padrinho de oito. Imagina! Aí alguém chega e diz: 'Mas eles roubam!' Claro que roubam, ninguém dá emprego, ninguém dá educação!"

  • Caótico: "O Walter Salles disse que eu sou o 'poeta do caos'. Sou do caos total! Imagina acordar todo dia com a polícia gritando: 'Deita no chão!'. E aí vem uma senhora, um garoto do bem, e diz: 'Não, esse cara aí não é quem você pensa! Ele canta rap.'"

  • Regras da vida: "Aprendi a me comportar com uma galera da pesada. Eles diziam para eu escovar os dentes, varrer o chão, arrumar a cama – aprendi a ser educado com ladrões de banco, estelionatários, pode? Mas sabe por quê? Porque eles têm uma religião entre eles."

  • Ambiente: "Moro numa favela de onde não penso sair. Não consigo sair. Penso na senhora pra quem eu dou um saco de arroz por mês, no rapaz que eu convenço a não usar drogas. Me sinto lisonjeado por falar e um cara da minha idade parar de usar. Mas se eu não estiver ali olhando, ele volta a usar. (...) Acho que os meus filhos não vão resistir às tentações de cabular aula, de selecionar os amigos. Se eu sair da favela, vai ser por eles."

  • O futuro: "Enquanto isso eu vou remando. Mas pra remar um barco, você tem que ter um remo. Só espero não morrer antes do tempo."


  • Esta frase acima, sobre o que ele esperava do futuro, foi a última da entrevista. Estávamos na sede da gravadora YB, em São Paulo, e o Sabotage se cansou de falar. Levantou-se, disse que ia para o estúdio gravar, apertou o botão "stop" do meu gravador. "Acabou", disse. E saiu andando.

    Um comentário:

    Rodrigo disse...

    Matéria sensacional!!e o final emocionante.