segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Entrevistas sobre quadrinhos: Adrian Tomine



Adrian Tomine começou a fazer quadrinhos como todo bom autor começa: criando um fanzine de história curtas, o Optic Nerve, e distribuindo-o ele mesmo. Entre isso e as ilustrações que hoje ele faz para a New Yorker foi um longo caminho.

Um ponto relevante desse caminho foi Shortcomings, uma história longa - mas não uma graphic novel, segundo o quadrinista - que segue a temática constante de Tomine: solidão, rejeição, relacionamentos que não dão certo e mais um monte de coisas com as quais o leitor pode facilmente se identificar (mesmo que negue).

Em fevereiro ele lança Scenes From an Impending Marriage - a Prenupcial Memoir by Adrian Tomine, pela editora canadense Drawn & Quarterly. No volume, ele relata os bastidores de seu casamento. E em breve ele também deve estrear no mundo das cores, em um projeto ainda sem nome.

Nenhum dos álbuns de Tomine foi publicado no Brasil, mas eles são facilmente encomendáveis nas melhores livrarias. (parece que a única coisa dele que saiu por aqui foi dentro da coletânea Comic Book - o Novo Quadrinho Norte-Americano, lançada pela Conrad)

Eu conversei com o Adrian Tomine sobre o trabalho dele. Abaixo, a íntegra da entrevista.

Como você acha que a internet afetou os quadrinhos independentes? Por exemplo, você acha que lançaria "fisicamente" o fanzine Optic Nerve se você estivesse começando hoje? Como observador, para que boa parte da diversão está no trabalho manual.

Sei que vou me datar ao dizer isto, mas, pelo menos até agora, a verdade é que não acho que os computadores tenham apelo algum para a leitura de quadrinhos. Eu não quero consumir quadrinhos dessa forma, então obviamente não penso que meu trabalho será lido assim. Não acredito que verei uma mudança tão drástica assim enquanto viver, mas me ver o mundo impresso se erodir diante dos meus olhos – incluindo as livrarias – me deixa muito triste.

De Optic Nerve a Shortcomings, a evolução – e o tamanho – do seu trabalho parecem ter evoluído de forma natural. Mas muitos artistas não se adaptam bem na transição de histórias curtas para longas. Como foi o seu processo para Shortcomings? A história foi originalmente serializada em Optic Nerve, mas você a finalizou antes de "quebrá-la"?

Passar de histórias curtas para algo longo definitivamente foi uma batalha para mim. Hesito em chamar Shortcomings de graphic novel... porque não é muito longa. Foi um desafio no qual eu me joguei sem saber qual seria o resultado. De forma geral, minha estratégia foi mapear o roteiro antecipadamente, escrever e desenhar cada capítulo individualmente e me manter aberto a qualquer tipo de mudança ou improvisação que surgisse no caminho.

Ao ler as suas histórias cronologicamente, sinto que seus primeiros trabalhos eram mais movidos a raiva. Você concorda?

Isso pode ser verdade. Meu primeiro trabalho a ser publicado saiu quando eu tinha 15 anos, então sou – ainda bem! – uma pessoa bem diferente agora. Por outro lado, bastante do meu trabalho atual é, de certa forma, movido a raiva.



Você já falou sobre o fato de muita gente te dizer que acha o seu trabalho parecido com o do Raymond Carver, um autor que você diz ter conhecido mais tarde. Há algum autor que o tenha influenciado desde o princípio? Alguém que o motivou a escrever?

Outros cartunistas, basicamente. Para alguém que sempre recebe o elogioso rótulo de "cartunista literário", eu não era – e ainda não sou – um leitor ávido. Fui forçado a ler muitos livros quando estudei literatura na faculdade, mas era uma quantidade tão absurda de material que a maior parte saiu do meu cérebro assim que terminei de escrever meus trabalhos sobre eles. Então a verdade é que minhas inspirações vieram de outros cartunistas, voltando até as tirinhas Peanuts, do Schulz.

Conheci os quadrinhos de Yoshihiro Tatsumi por meio do seu trabalho com a Drawn & Quarterly, então naturalmente conheci as suas HQs antes. Você parece ter lido as histórias dele desde muito cedo. Como elas impactaram a sua criação?

Descobri o trabalho de Tatsumi no mesmo período inebriante em que eu estava conhecendo Crumb, os irmãos Hernandez, Clowes etc. E todas essas pessoas abriram os meus olhos em termos do que poderia ser feito com quadrinhos.

É incrível como, em uma de suas entrevistas com o Tatsumi, ele pede para que o leitor não presuma que ele é sempre o protagonista dos quadrinhos dele. Sempre te perguntam sobre as suas histórias, sobre elas serem autobiográficas ou não. Você já pensou em começá-las com um aviso de "sem relação com a minha vida" ou "levemente baseado na minha vida"?


Sempre mudo a minha resposta para essa pergunta, dependendo do que acho que o entrevistar pensou sobre o material que ele leu. Em outras palavras, se alguém odeia os personagens de Shortcomings, o que não é raro, eu explico que é um trabalho mais baseado em ficção, para que ele não me confunda com esses personagens inventados, a maior parte deles chatos e profundamente cheios de defeitos. Sempre me lembro da negação incisiva de Woody Allen quanto ao conteúdo de Memórias ser autobiográfico. Não tenho como confirmar isso, mas acho que ele se retraiu um pouco quando as pessoas ficaram tão ofendidas.

Qual a sua opinião sobre filmes baseados em HQs? Hollywood parece estar se interessando bastante por isso, e não somente nos super-herois. Na Ásia, isso é ainda mais claro – até o trabalho do Tatsumi está sendo adaptado, em Taiwan. Você imagina o seu trabalho na telona?

Meu trabalho nunca foi criado pensando em nisso, ao contrário de muitos quadrinhos que vejo nas lojas atualmente. Não sou completamente contrário a uma adaptação, mas não é algo a que dedico intensamente a minha vida. Mas preciso dizer que, por outro lado, li um roteiro adaptado de Shortcomings e achei melhor que o meu livro. Alguém quer fazer um filme sobre um bando de asiáticos norte-americanos que só ficam sentados conversando?

No que você tem trabalhado? Seu trabalho mais recente foi um livro sobre o seu casamento, alguns anos atrás, não?

Estou trabalhando em dois livros agora. Um deles é uma versão ampliada dos quadrinhos de casamento aos quais você se referiu. É um livro leve, engraçado, quase um diário em quadrinhos – e por isso achei que seria bom para suceder Shortcomings. Também estou trabalhando em algo um pouco mais complicado e trabalhoso que isso, mas ainda não posso dizer o que é, só que é uma coleção de histórias e que é em cores. Ambos serão publicados, na América do Norte, pela Drawn & Quarterly, como sempre.

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