quarta-feira, 1 de julho de 2009

Prestes a cantar no Brasil, Mark Lanegan não tem saudade do grunge



Daqui a pouco dois ícones dos anos 90 subirão no palco juntos, em São Paulo: Mark Lanegan (do Screaming Trees, e que também já emprestou seu talento ao Queens of the Stone Age) e Greg Dulli (Afghan Whigs e - é sempre bom lembrar! - integrante da Backbeat Band). Por aqui eles não vão usar o nome Gutter Twins, mas isso o próprio Lanegan explica na entrevista abaixo, feita pelo José Flávio Júnior, parceiro de Qualquer Coisa, que até conseguiu fazer o cara rir!

Por que vocês decidiram parar de excursionar como The Gutter Twins e começar esse projeto An Evening with Mark Lanegan & Greg Dulli, com apenas um músico de apoio?

Mark Lanegan - Porque durante um ano a gente tocou nos Estados Unidos e na Europa várias vezes com a banda completa. Daí a gente decidiu fazer uma coisa mais "pelada", que é esse show novo. E isso é tão excitante para a gente quanto o outro formato.

Então isso não significa que Greg e você estão cansados do rock and roll?

Não. A gente curte fazer as duas coisas. E o show acústico é mais desafiador, pois você não tem a banda barulhenta dando suporte. Por esse prisma, é bem satisfatório. Fica mais fora da sua zona de conforto.

Você é amigo do Greg há quanto tempo?

A gente se trombou pela primeira vez há vinte anos. Mas somos amigos de verdade há uns dez, onze anos.

E como vocês decidiram montar o Gutter Twins?

A gente já tinha tocado juntos. Eu tinha cantado no disco do Twilight Singers e feito shows com o grupo. O Greg tinha tocado teclado na minha banda solo e cantado em alguns discos meus. Então a gente decidiu compor umas músicas em parceria. E isso foi o começo de tudo.

Você voltará a trabalhar com Josh Homme e o Queens of The Stone Age?

Não sei. É uma possibilidade.

E com a Isobel Campbell?

Sim. Acabei de finalizar mais um disco com ela. Quer dizer, finalizei minha parte. Não sei quando ficará pronto ou quando será lançado.

E sua carreira-solo propriamente dita? Depois de Bubblegum, você não lançou mais nenhum disco-solo.

Não, mas desde aquela época eu trabalhei em seis álbuns. Estive bastante ocupado. Mas vou lançar um novo solo alguma hora.

Existe alguma possibilidade do Screaming Trees se reunir?


Creio que não. A banda durou 15 anos e isso é bastante tempo para se fazer coisas. Hoje os integrantes estão tocando trabalhos diferentes, que os satisfazem artisticamente e os deixam orgulhosos. Eu não mudaria nada do que fiz com o Screaming Trees. Mas aquilo tem o seu momento e lugar. Prefiro fazer algo novo.

Pergunto isso porque o Alice in Chains está em turnê e dizem que o Soundgarden pode voltar. Mas você não se interessa por essa onda de revivals, certo?

Nem um pouco. Legal que isso interesse para esses caras. São duas bandas maravilhosas e tenho certeza de que muita gente quer ouvi-las. Se eles estão animados com isso, beleza. Dou toda a força. Mas não tenho vontade de fazer o mesmo com o Screaming Trees.

Você concorda que as coisas melhoraram para você após o fim do Screaming Trees?


Bem, vamos dizer que estou feliz com o modo que tudo se encaminhou desde então. Não sei se as coisas melhoraram. É apenas uma nova fase, uma extensão natural de ser um músico e continuar a trabalhar.

O que vocês tocarão no show do Bourbon Street?


Algumas músicas do Gutter Twins, outras do Afghan Whigs, algumas do Twilight Singers, algumas da minha carreira solo, algumas do Screaming Trees e algumas covers. Ou seja, cobriremos tudo.

Você nunca esteve no Brasil, então qual é a sua expectativa e o que você conhece do país?


Eu conheço umas coisas da Tropicália. Mas espero ser educado quando estiver aí. Não sei direito o que esperar dessa visita.

Uma vez eu li uma matéria em que o Nick Oliveri (ex-baixista do Queens of The Stone Age) analisava o seu humor. E, como todo mundo, ele retratava você como uma pessoa sombria. É isso mesmo? Você é assim?

Sabe... O que é sombrio para uma pessoa pode ser suave para outra [risos]. É por aí. Eu sou apenas uma pessoa.

Nessa matéria o Nick dizia que era muito difícil fazer você rir. Acabei de constatar que isso não é tão verdade.

[Silêncio]

Quero dizer, você pode ser uma pessoa alegre também, certo?

Sim, eu posso.

Você sente falta de alguma coisa daquela era grunge?

Sinto falta de alguns amigos, que não estão mais entre nós. Mas, no quesito musical, não sinto falta de nada. De novo: aquela música tem o seu tempo e o seu lugar. Mas eu nunca penso nela, a não ser quando alguém me pergunta sobre. Prefiro ficar no "aqui e agora".

Sempre que algum trabalho seu é analisado vem junto uma avaliação positiva da sua voz. Eu mesmo te considero um dos grandes cantores vivos. Como é que você lida com essa babação da crítica, sempre destacando o seu modo de cantar?

Em primeiro lugar, eu não presto atenção no que os críticos dizem sobre o meu trabalho [risos]. É o tipo de coisa que não me interessa. Sei que há pessoas que admiram meu canto e isso é ótimo. Muito pior seria se não gostassem. Mas quanto ao que as pessoas escrevem sobre isso, realmente não presto atenção. E também não fico analisando muito. Só vou lá e canto. É uma coisa natural. E eu adoro cantar. Analisar isso é trabalho de outra pessoa. Não me preocupo nem um pouco.

Você cuida da sua voz?

Sim... Quer dizer, o que você está querendo dizer [risos]?

Tipo se você tem algum cuidado em não beber ou não fumar para preservar a voz [risos]...

Eu parei com essas duas coisas.

Sério? Você está falando sério?

Sim.

Mas até nas suas fotos de divulgação você aparece fumando! Então isso é recente.

Parei há quase um ano. Com a bebida eu parei há mais tempo.

Caramba! Parabéns!

Obrigado.

Artistas como você e o Mike Patton têm uma rotina musical curiosa. Estão sempre tocando com vários projetos diferentes, sempre experimentando coisas novas com outros músicos. Você é feliz com esse tipo de vida artística? Foi isso o que você sempre procurou para a sua carreira?


Não, isso foi algo que foi acontecendo. Tive a benção de ser requisitado para colaborar com muita gente. Mas deixa eu te dizer uma coisa: o Mike Patton faz um milhão de coisas a mais do que eu [risos]. Ele é extremamente prolífico. Eu o admiro muito. Ele está num álbum do Soulsavers que eu também estou e será lançado em agosto. Então ele pode botar mais essa colaboração no currículo.

E ele tem uma gravadora, algo que você ainda não tem.


[Risos] Sinceramente, não sei como ele consegue. Deve trabalhar 24 horas por dia a semana inteira. Mas eu curto essas colaborações. Elas me mantêm interessado em música.

No momento você está ouvindo algum artista ou tipo de música em particular?

Toda vez que alguém me pergunta isso me dá um branco total. Claro que estou ouvindo música no momento, mas não vou saber te dizer exatamente o quê. A não ser que eu estivesse com meu iPod aqui, o que não é o caso.

Então você ouve música num iPod. Pensei que você fosse um daqueles fãs do vinil...

Tenho alguns LPs, mas faz tempo que estou sem toca-discos. Acabei de falar para a minha namorada que eu ouviria mais música se tivesse um toca-discos outra vez. Mas eu escuto música no meu computador, infelizmente. Fui pego pela tecnologia do novo milênio [risos].

3 comentários:

Eduardo Martinez disse...

É, realmente. Uma entrevista com o Lanegan em que a palavra "risos" aparece 6 vezes é algo para se prestar atenção.

nuerjerego disse...

Grande entrevista, Zé! Summer's Kiss! :~

Bola de Chiclete disse...

Ahhh, não fui, sou uma anta... Mas se eles perceberam o quão importantes são pros brasileiros, eles voltam com certeza! Gostei muito dessa entrevista.
Legal também a citação ao Mike Patton que trabalha tanto quanto (até mais) que ele e é igualmente talentoso.

Mark Lanegan rindo, como assim? É vero isso? haha