quinta-feira, 21 de maio de 2009

Paula Lavigne, Cê e as "músicas malucas" de Caetano Veloso



Entrevistei Caetano Veloso para a edição mais recente da Rolling Stone (Fernanda Machado na capa) e a íntegra já está no site da revista. Separei um trecho que achei curioso e bonito, no qual ele conta como foi a primeira vez em que a ex-esposa dele, Paula Lavigne, ouvi as músicas do disco (que são, em boa parte, sobre ela).

A Paula também fala bastante de você. Ela também não tem pudores em falar do relacionamento de vocês, mesmo porque vocês continuam trabalhando juntos e continuam próximos. Quando você vai escrever letras pessoais, falando de assuntos muito íntimos, você tem a preocupação em saber se isso vai atingir a Paula? Vocês conversam sobre isso?

As canções do ... foi assim: eu estava compondo essas canções e... hoje eu e Paulinha temos mais tranquilidade e maturidade para viver a separação do que quando era muito mais perto. Quando era muito recente a separação era muito mais difícil, não havia tranquilidade, nem paz afetiva e emocional pra se conversar sobre essas coisas. E eu tinha feito aquelas canções que eram urgentes para mim. Eu precisava fazer e ia gravá-las. E não estava em contato com ela, nem muito frequente, nem muito pacífico, nem muito tranqüilo. Mas tinha contato com ela porque não só a gente continuou trabalhando como temos os filhos, tínhamos que nos ver e nos falar. Teve um evento em Paris e, em seguida, um em Londres. E ela foi com os meninos, com o Zeca e o Tom. O Tom era bem menorzinho. Zeca também bem menor, naquela altura ele era um adolescente ainda pequeno. Mas o Tom adorava as canções novas e aprendeu todas, sabia cantar. A Paulinha foi com eles e nós nos encontramos lá. Era um negócio na Cinemateca Francesa, uma retrospectiva do Almodóvar. Eles me pediram pra fazer um show só de violão referente aos filmes de Pedro. E eu fiz, e foi muito bonito e tal. Daí em Londres ela levou os meninos e ficou no hotel com os meninos. Eu fiquei no mesmo hotel em outro quarto, e a gente se via, eu mostrava aos meninos as coisas na rua e tal. E aí uma noite ela perguntou sobre as canções do disco e o Tom na verdade ficou falando. Terminou com o Tom cantando pra ela cada uma das canções que eram pra ela - e o Tom sabia e queria contar a ela. Ele foi mostrando na minha presença, cantando e pedindo pra eu tocar pra acompanhar, e eu encorajando ele a cantar e foi uma maneira bonita... Aconteceu espontâneo do Tom querer cantar, ele era bem pequeno. Ela ouviu as canções assim. Ela não gosta muito de reagir emocionalmente a canções, e nem de ligar canções a fatos da vida real. Nunca gostou, desde sempre. Mesmo as outras canções que não são minhas, entende? Porque é muito frequente: não tenho um amigo que não ligue canções a estados emocionais próprios, ou a situações afetivas. Paulinha não faz isso, é curioso. Quando uma canção é assim explicitamente feita pra ela, como "Branquinha", ou "Não Me Arrependo", ela desbaratina, não demonstra emoção alguma e faz brincadeira dizendo "ah, mas 'Branquinha', essa musiquinha... canção bonita você fez foi pra Sônia Braga e pra Dedé, e pra Vera Gata, pra Regina Cazé, mas pra mim você faz uma musiquinha". Acho "Branquinha" deslumbrante. Mesmo o "Não Me Arrependo" - que é uma música que eu fico emocionado quando canto. Fiquei com uma vontade louca de chorar quando o Tom estava cantando pra ela, mas ela não demonstrou. Falou que era bonita, gostou, mas criticamente ela disse: "ai, Tom, você gosta dessas músicas malucas do seu pai?" [risos]. E não teve nada.


O resto está aqui. Também recomendo a entrevista feita pelo companheiro de Qualquer Coisa José Flávio Júnior, aqui. O Ronaldo Evangelista tem uma outra, que deve entrar no blog dele no fim de semana.

[Foto: Fernando Young]

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