quinta-feira, 2 de abril de 2009

Já conhece o "primo" brasileiro do Bruno Aleixo?

Bruno Aleixo numa nice

Que a história de Bruno Aleixo começou quando ele estava foragido no Brasil, todo fã sabe. Mas e a história de que um animador brasileiro tem contribuido para a série do personagem que conquistou a nossa web? O nome do cara é Marcelo Barbosa, só que antes é melhor voltar atrás e explicar melhor o "fenômeno Aleixo".

Bruno Aleixo é um personagem português de animação, criado pelo trio João Moreira, João Pombeiro e Pedro Santo. Os três fazem tudo em um esquema independente de dar inveja - tanto que começaram a trabalhar juntos quando nem se conheciam pessoalmente, já que moravam em cidades diferentes!

Na internet o personagem começou com a série "Os Conselhos Que Vos Deixo", na qual ele - refugiado no Rio de Janeiro - falava sobre seu passado como se tivesse morrido. Depois veio "Aleixo na Escola", com a infância do personagem, e a animação migrou para a TV a cabo portuguesa no fim de 2008, com O Programa do Aleixo, na SIC Radical.

A série atual, Circo Bueno, é feita como se fosse um plágio uruguaio do Bruno Aleixo. Apesar das vozes serem exatamente as mesmas, muita gente levou a sério. E são exatamente esses quadros que o brasileiro Marcelo Barbosa anima, direto de Porto Alegre. Conversei com ele sobre isso tudo:

Como foi que o povo do Bruno Aleixo entrou em contato com você? Você já conhecia as animações deles?

Eu converso há alguns meses com o João Moreira, que faz a voz do Bruno. Na verdade, fiquei um bom tempo sem saber que ele tinha ligação com O Programa do Aleixo. Entrou em contato comigo pela internet porque havia gostado de alguns trabalhos meus, como o Tcheco [série de TV de 1999]. E batíamos papos aleatórios. Ele pediu, por exemplo, que eu mostrasse produções ligadas ao humor no Brasil. Mandei alguns favoritos meus, como Hermes & Renato, TV Pirata... Mas no fim, ele disse que gosta do Tcheco e da Nair Bello. Achei fantástico quando soube que ele "é" o Bruno, porque já tinha virado fã em 2008. Primeiro vi a - já clássica! - disputa de Street Fighter entre Aleixo e Busto, que naturalmente me levou a garimpar pelo material restante e ser mais um dos que cultuam o programa. Poucas semanas atrás conheci também João Pombeiro e Pedro Santo, que, para a minha surpresa, me convidaram para colaborar com a produção dos desenhos.

Você vê alguma semelhança entre o trabalho que você já fazia antes e o que a GANA faz?

Vejo sim, e acho que eles me chamaram porque viram também. Depois de tempos parado, retomei minha produção em 2008. Por coincidência, muitas das escolhas e técnicas que comecei a usar lembram também as que o João Pombeiro usa para os vídeos deles. Então há essa certa afinidade visual. E nos antigos desenhos do Tcheco vejo duas características em comum com o Aleixo: primeiro é que, mesmo com roteiros e estilos muito diferentes, as duas séries sempre tratam de uma falta gigante de comunicação entre as pessoas e todo o constrangimento que isso gera; e há o fato desses desenhos serem desconfortáveis também para quem os assiste na primeira vez. Desde que comecei a ver O Programa do Aleixo e a conversar com outros fãs, me fizeram vez ou outra os comentários que ouvia sempre sobre o Tcheco, dessa estranheza causada logo de cara. Mas os dois programas contam histórias sobre gente desinteressante, sem grandes ambições e discutindo qualquer bobagem. Então julgo adequado o clima pouco convidativo, com cores apagadas, vozes alteradas, takes longos e silêncios idem.



A sua participação funciona exatamente da forma que eles trabalham lá? Te passam o áudio, instruções e você faz o resto?

Eu estou cuidando agora da edição, montagem e animação do Circo Bueno, um suposto seriado uruguaio que rouba os scripts clássicos do Aleixo. Recebo os diálogos gravados de forma corrida, para então recortar e montá-los num ritmo que deixe claro que os palhaços uruguaios estão discutindo sem paciência. Por fim, faço a animação com um estilo bastante diferente da série do Bruno - até para a dúvida sobre o plágio ser real e se esticar um pouco mais. Enquanto Aleixo tende a ser mais contido, a versão em espanhol inevitavelmente me remetia ao Seu Madruga - com todos aqueles gestos e atuação exagerada. Mesmo sendo o mesmíssimo texto, o Aleixo é muito europeu, enquanto Circo Bueno é muito latino. No Aleixo, temos cavalheiros sóbrios tornando-se deselegantes sem perder a pose. Já o Circo Bueno é descontrolado, colorido e vulgar. Fica parecendo que algum dos palhaços logo vai arrebentar a cara do outro.

A parceria entre vocês continuará no futuro?

Tanto eu quanto eles esperamos que sim. O negócio está no início do início. Está sendo um momento de observação, de assimilar o estilo e a narrativa deles. Para o trio de produtores, esses vídeos funcionam a partir de uma linha muito clara a ser seguida. Não posso chegar anarquizando, até pelo respeito e admiração que tenho pelo que fizeram até agora. Dei um rumo diferenciado à série do Circo, mas esse é um caso à parte. E ainda assim, tento ser fiel ao que já foi criado anteriormente por eles. Não quero ser o cara que veio pra arruinar o Bruno Aleixo. Já me disseram que posso sugerir temas pra vídeos futuros, mas ao menos por enquanto eu estou vendo e estudando como funciona. Para fazer algo legal quando for a hora.



Muita gente acreditou na história do plágio uruguaio. A série vai ter quantos vídeos?

Isso aí é engraçado. Me disseram no início que a idéia era ver se iam acreditar se tratar de um plágio real. Mas nunca achei que alguém iria cair nessa história. Por mais que exista um ou outro motivo para causar a dúvida, as pistas de que aquilo é uma piada são muito mais presentes e evidentes. Até as vozes são notoriamente as mesmas dos desenhos do Bruno! Não sei quantos vídeos serão feitos, pois não participo dessa etapa de discussões e planejamento. Mas suponho que, enquanto o assunto render, vai haver o Circo Bueno.

Qual a sua série preferida do Aleixo?

Eu gosto mais d’O Programa do Aleixo. Porque, além de tudo, há essa temática da televisão que, como bom filho dos anos 90, sempre dava um jeito de inserir na minha produção. Mas a imagem do Aleixo na escola também é marcante demais para não ser citada. Não há uma que seja infinitamente melhor que outra. Vi todas. Como disse antes, esse convite que me foi feito foi um tanto surreal, já que havia me tornado fã dos desenhos bem antes da participação neles.

A que você credita o sucesso do Aleixo no Brasil?

Eu e o Moreira já conversamos algumas vezes sobre isso. Porque demorou um pouco pra cair a ficha para ele que o desenho faz muito sucesso por aqui, sendo que nem é exibido oficialmente no Brasil. Me parece ser a primeira vez que a gente presta atenção de verdade em um seriado que não é norte-americano, brasileiro ou japonês. E há um fascínio com as diferenças culturais. Portugueses assistem há tempos a tudo o que fazemos na televisão, mas nós sabemos nada sobre eles. Se sairmos nas ruas pedindo nomes de artistas de Portugal, vão todos falar no Roberto Leal e só. Então, além das histórias e do texto, prestamos atenção nos detalhes que, para os portugueses, são justamente detalhes. Tudo soa novo e original. Eles usam uma série de gírias comuns por lá mas que o pessoal começa só agora a incorporar aqui. E falamos rindo, feito crianças na escola que aprendem um palavrão novo. Por outro lado, depois de assimilarmos as novidades, eles também falam do Brasil nas piadas. E vê-los cantando Leandro & Leonardo ou citando nossos times de futebol é igualmente inusitado. Há então esse aspecto contraditório e único, de ser uma experiência diferente do que nos acostumamos mas brutalmente familiar quando menos se espera. No fim é um intercâmbio cultural com parentes que ainda não conhecíamos muito bem.

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