quinta-feira, 6 de março de 2008

Quem precisa da inspiração de Bob Dylan?


O preço das entradas caras de Bob Dylan têm um efeito estranho: quem pagou caro dificilmente vai assumir que não valeu a pena. Esse é um modo de ver a coisa. O outro é que boa parte das pessoas que foram ao Via Funchal ontem simplesmente não deram a mínima para a qualidade do show de Dylan – o mais importante era estar lá. Então dá-lhe conversa durante as músicas e muita, mas muita mesmo, bebida.

Não era difícil ver alguém reclamando que os corredores estavam cheios de pessoas em pé. "Segurança, dá para tirar essas pessoas daqui? Não consigo tomar meu champanhe em paz!", reclamava um senhor de óculos, jogando sem dó a sua cadeira contra as pessoas que – desorientadas pela pontualidade de Dylan, ainda estava tentando encontrar os seus lugares. Sorte teve quem era famoso, que ganhava escolta até a mesa, com gritos de "sai da frente!" e tudo.

A apresentação foi exatamente o que se esperava. O músico seguiu o modelo de seus shows mais recentes, abrindo com algumas músicas tocadas na guitarra e depois seguindo para o teclado, de onde não saiu mais. O repertório teve menos hits do que outros shows recentes (o senador Eduardo Suplicy não ouviu "Blowin' in the Wind" – e até tentou puxar um coro pedindo a canção no fim, mas sem sucesso) e demorou algum tempo para decolar.

Durante umas boas cinco músicas a banda de Dylan parecia insegura e até meio perdida. Culpa do chefe, claro. Tem de ter muito jogo de cintura para acompanhar um vocalista que insiste em trocar a melodia vocal assim que percebe que o público está cantando junto. Mas não é esse o problema dos tais "poetas do rock"? Os caras querem ser ouvidos, não promover uma festa.

O que, claro, não impediu que o lugar tremesse em "Like a Rolling Stone". Quando o pai de Jakob parecia estar se animando mais, uma fã invadiu o palco e fez uma reverência na frente dele. Ganhou um olhar de ódio que só os ícones do rock conseguem produzir, mais um gesto de "cai fora do meu palco!".

Bob Dylan só falou com a platéia quando apresentou o grupo: e mesmo assim foi apenas uma série de grunhidos indecifráveis. Dava para ser mais simpático? Dava. Qualquer coisa que ele dissesse competiria facilmente com as letras das 17 canções que ele cantou? Claro que não.

E isso nos traz a mais uma discussão: aquele Dylan que cantou no Via Funchal tem o mesmo valor do cantor folk dos anos 60? Acho que não. E faz diferença? Não também. Sozinho, Bob Dylan já fez mais pela música do que 93,4% dos músicos (incluindo aí o Be Your Own Pet e o Automatic, claro). Voltando ao lance do "poeta do rock": você vai até lá ver o autor fazer uma leitura de seu trabalho e, se ela for boa, melhor ainda. Vai mudar a vida de alguém? Bom, depende mais de você do que daquele velhinho no palco. Ou, como ele mesmo diria: "Sai agora da porra do meu palco!"

3 comentários:

Anônimo disse...

mano, vc eh rancoroso, hein? guardou uma materia de 2006 soh esperando a hora certa pra ridiculariza-la. ow!

Paulo Terron disse...

rancor é algo que a gente guarda quando ataque é pessoal, não é? isso se chama memória.

e como vc está falando de algo muito específico, imagino que seja da coluna do Thiago Ney. é isso? pois saiba que eu não guardei, não: eu venho ridicularizando desde 2006, non stop! hahahahaha

Anônimo disse...

entendi.