segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Um quase L7 no Brasil. L3,5?


Quinze anos atrás, no meio do furacão grunge, o L7 passou pelo Brasil e levantou multidões no Rio e em São Paulo. Para as meninas foi uma surpresa: imprensa e fãs acompanharam cada momento da turnê, a MTV Brasil bombou os clipes de "Monster", "Everglade" e, claro, "Pretend We're Dead".

Voltando para 2008, Donita Sparks já não é da banda (que se separou) há oito anos. Ela, que foi figura ativa em movimentos políticos como o Rock For Choice (que lutava pelo direito do aborto), passou a viver tudo em escala menor.

Apesar do ânimo dos brasileiros, o L7 nunca decolou nos Estados Unidos. Foi uma daquelas bandas que ficou no "quase". Donita fez trilhas de filme e videogame e passou a escrever um blog no site Firedoglake. Com composições novas no bolso, convocou outra ex-L7 - a baterista Dee Plakas - e gravou Transmiticate, pela gravadora Spark Fly (que é dela).

O disco - lançado oficialmente hoje - tem como suporte uma série de iniciativas que promovem uma ligação mais direta com os fãs: eles podem pagar e entrar para uma espécie de clube virtual e não só receber música, mas interagir com as faixas sem medo de serem repreendidos pela gravadora. Para quem quiser ir além, dá até para comprar cotas de uma canção e lucrar com ela (caso ela dê lucro, obviamente).

É essa "nova" Donita Sparks que vem ao Brasil esta semana mostrar seu novo trabalho. Detalhe: o Brasil é o único lugar que ouvirá SEIS músicas do L7. De Los Angeles ela falou com o With Lasers sobre tudo e mais um pouco.


O último disco do L7 saiu em 2000. Desde então não ouvimos falar muito sobre o você...

É verdade. Tirei um tempo para cuidar de umas coisas pessoais, mas continuei escrevendo músicas durante esse tempo todo, eu só não tinha uma banda. Aprendi a mexer no Pro Tools, a gravar as minhas coisas sozinha. E também fiz umas trilhas-sonoras... E tenho escrito para um site de política, o Firedoglake. Já faz dois anos que escrevo lá.

Li que você fez um trabalho para a Microsoft. O que foi exatamente?

Era para um game online que eles tinham, o Gun.

Boa parte do pessoal que era do grunge foi fazer esse tipo de coisa mais corporativa: o Chris Cornell fez música para filme do James Bond, o Eddie Vedder ganhou um Globo de Ouro. Vocês imaginavam que isso poderia acontecer?


O Soundgarden e o Pearl Jam tocaram muito em rádio aqui nos EUA. O L7 não. Eles venderam milhões de discos, nós não. Nós mal conseguimos sair do underground – e esses caras ficaram gigantes. Nós nunca chegamos ao mesmo ponto que eles.

No Brasil, na época do grunge, era curioso: o L7 parecia ser tão grande quanto as outras bandas.

Era assim no Brasil, mas no resto do mundo... É tipo o que aconteceu com os Ramones, sabe? Eles eram gigantescos no Brasil, mas nunca foram grandes nos EUA. Lendários? Sim. Uma grande influência? Sim também – mas não tocavam em rádio aqui. Foi o mesmo conosco. Tivemos uma certa fama, mas nunca vendemos muitos discos. Acho que o máximo que chegamos a vender foi... Menos de meio milhão, algo entre 250 e 300 mil cópias.

Seu disco novo vai sair pela sua própria gravadora, Spark Fly, certo?

Sim, sai agora na terça-feira. É curioso porque, com todas as mudanças pelas quais a indústria fonográfica está passando, fico feliz por ser assim. Acho quem muita coisa estranha rolando agora...

Até nas gravadoras menores?

Acho que as menores são saudáveis. Seria legal lançar por uma delas também, acho. Mas uma gravadora grande não é um bom lugar para se estar hoje. Haveria muita incerteza. E as menores estão se saindo bem. A Sub Pop, por exemplo, está indo bem.

Como foi a sua experiência com a Sub Pop?

Foi muito boa. Por causa da Sub Pop conseguimos chegar à Europa. O problema é que às vezes chegávamos a algumas cidades e nossos discos não estavam à venda. Por isso optamos por uma gravadora grande na época. Aí conseguimos atingir todos os lugares.

Há alguma coisa específica que você tenha aprendido enquanto era contratada de uma gravadora grande?

Sim, o melhor de tudo era a distribuição. Era o lado mais poderoso da coisa. O selo com o qual assinamos, Slash, era de Los Angeles e tinha uma parceria com a Warner. O Slash era muito legal, tinha gente como o X, Faith No More, The Germs...

Eles sabiam o que estavam fazendo.

Exatamente. Eles eram descolados.

Esse lance da distribuição era um problema antes da internet. Você acha que uma banda grande ainda precisa de uma gravadora grande?


Não sei. De verdade: não sei mesmo.

O "pague quanto quiser" do Radiohead não foi uma pista para o futuro?

Sim, você viu o que estamos fazendo com a CASH Music?

Vi, mas explique melhor, por favor.

Bom, comecei esse formato com uma artista chamada Kristin Hersh, que era do Throwing Muses. Tentamos criar um formato de negócio que pudéssemos usar em nossas carreiras. Ele é baseado em uma relação mais próxima com os fãs, oferecendo música diretamente a eles e pedindo o apoio deles. Eu dou uma música por mês e uma autorização para que as pessoas possam remixá-la sem problemas legais envolvendo uma gravadora.

Isso costuma ser um problemão.

É! Por exemplo, eu fiz um mashup de L7 com Cansei de Ser Sexy... E não tinha autorização para isso. Como eles gostaram e já estavam tocando "Pretend We're Dead" no shows, tudo deu certo. Então o espírito é esse. Na CASH todo mundo pode participar, há uma interação.

E há um caso específico com uma das músicas que vai além disso, não?

Sim, em "He's Got the Honey" o investidor tem participação na sync license – que normalmente é da gravadora. Eu ofereço ações, quase como na bolsa de valores. Qualquer um pode comprar e, se a faixa for comprada para comerciais ou games, a pessoa recebe uma parcela dos lucros.

E é caro para o fã?

Meia ação custa US$ 100. Fazendo as contas, dá para ser bom para todo mundo. Se a música for usada em algum lugar, quem investiu pode se dar bem. Para mim é uma forma de arrecadar uma grana que eu preciso ter agora, para transporte, fabricação dos CDs, coisas assim. Antigamente esse adiantamento vinha da gravadora. Do modo como estamos fazendo, ele vem direto dos fãs e dos interessados.

Você tem experimentado bastante com essa relação direta: no seu site os fãs podem comprar um tanque de combustível para vocês usarem nas turnês e ter alguns benefícios.

Pois é, tenho mesmo. E tem funcionado muito bem. Tem gente se associando ao meu Clube do Vinil. As pessoas estão participando. Em tempos como os nossos, é preciso ser criativo. Cara, se alguns anos atrás eu tivesse tido a oportunidade de ter o meu nome em uma camiseta dos Ramones eu teria surtado! [nota: uma das ações no site de Donita dá como vantagem o fã ter seu nome na camiseta oficial da artista] É muito legal, então estamos fazendo.


Você se espantou em ser chamada para tocar no Brasil?


Nós recebemos muitas mensagens dos brasileiros. Eu ficava muito triste em lembrar que o L7 nunca tinha voltado para tocar aí uma segunda vez. Nunca nos chamaram. Adoraríamos ter ido novamente. Perdemos nosso empresário e nossa gravadora e ficamos meio isoladas, sozinhas. Não sabíamos como voltar. Essa viagem minha ao Brasil só vai acontecer por causa da internet. Conheci o promotor dos shows pela internet.

Verdade que só no Brasil vocês vão tocar seis faixas do L7?


Sim.

Por quê?

Porque me disseram que os fãs nos matariam se não as tocássemos. [risos] E porque – como o L7 nunca tocou aí uma segunda vez - é uma coisa bacana de se fazer.

Você já decidiu quais são as seis? O release de imprensa dizia que você vai cantar "Everglade" – sendo que no original não é você quem canta.

Não, não é verdade. Também não vou cantar "Monster". Eu não faria isso porque respeito as outras meninas. Não é que eu teria qualquer problema em cantar essas músicas, é só que o certo é a Suzie [Gardner, ex-guitarrista do L7] cantando "Monster" e a Jennifer [Finch, ex-baixista] cantando "Everglade". Mas eu vou cantar as outras.

Você mantém contato com a Suzie e a Jennifer?


Não, não as vejo muito.

A Jennifer continua fazendo shows, mas a Suzie desapareceu.

Sim, desapareceu.

Por que, na sua opinião, a sua parceria com a baterista Dee Plakas continua dando certo?

A Dee é a rainha do pocket. Sabe o que é pocket? É quando um baterista consegue entrar no groove. Ela é a rainha disso. Por isso sempre tocamos juntas.

Vocês são vizinhas ou algo assim?

Não, ela mora em Santa Mônica, na praia, e eu moro na cidade. Não moramos muito perto mas nos vemos bastante.

O L7 vai se reunir para as comemorações de 20 anos da Sub Pop? A Lovefoxxx disse que ia tentar.

Fico feliz, mas acho que não vai rolar. [risos]

Por que não?

Quero me dedicar à minha carreira solo, mas não gosto mesmo é de nostalgia. Já sou sentimental demais, não preciso reviver o L7. O que vivemos e conseguimos foi muito legal: e eu ainda me lembro muito bem de tudo. Não preciso reviver esses momentos. A não ser que nos dessem MUITO dinheiro. [risos] Sabe como é? Saca só: nunca faturamos tanto quanto o Pearl Jam ou o Soundgarden, então se nos oferecessem uma grana legal eu tentaria fazer essa reunião. Seria uma decisão financeira.

Falando mais genericamente: você gosta dessas turnês de reunião?

Ahn... Eu sempre disse para o pessoal do L7 que eu nunca faria uma turnê de reunião. Sempre falei: "Tenham certeza quando decidirem acabar com a banda porque eu não volto." Não gosto muito dessas voltas. Por outro lado, vi os Sex Pistols e amei. A volta do X também foi fantástica. Entendo o apelo.

E do outro lado há as bandas que nunca se separam, tipo o Mudhoney. É difícil viver de música nos EUA?

É muito difícil. E é engraçado também: saí em turnê com o The Donnas e descobri que é mais caro fazer isso hoje em dia. O combustível é mais caro, os hotéis... Até os que são uma bosta estão caros! A única coisa que não aumentou foi o pagamento que as casas de shows fazem para as bandas. Isso me faz pensar sobre o futuro dos shows aqui nos EUA... Faço as contas e não vejo que não faz sentido algum. É um beco sem saída. Não dá nem para prever o que vai rolar. Talvez o futuro esteja na internet – e só nela. Eu mesma vou fazer um show de lançamento que será transmitido pela web para o mundo todo. Talvez o futuro seja esse: você faz um show na sua cidade e transmite pela internet.

Você seria feliz fazendo isso?

Não! Acho legal fazer de vez em quando, mas eu quero ir para a Europa, para o Brasil. Quero fazer tudo isso funcionar, dar certo.

Seu método de gravação para as músicas novas foi muito diferente? Achei que algumas faixas ficaram bem low-fi.

Não tentei fazer com que elas ficassem low-fi! [risos] Mas é isso que acontece no punk rock. Eu e a Dee gravamos quase tudo sozinhas – e não fazíamos a menor idéia do que estávamos fazendo! A gente só ligava um microfone e gravava. Fizemos tudo isso no nosso estúdio de ensaio, que tem paredes de tijolo – totalmente inapropriado para gravação. Mas decidimos fazer um lance punk rock, então não teve problema.

E você passou os últimos oito anos compondo?


Sim, foi tipo isso. Tenho muita coisa para lançar: umas 50 canções. Tenho muito material.

Do que você lembra da primeira passagem pelo Brasil?

Foi bem maluco. Nunca tínhamos sido seguidas por fãs antes. A gente se divertiu muito no Brasil, foi incrível. Espero que agora eu consiga voltar regularmente ao seu país.

DONITA SPARKS NO BRASIL. 22 de fevereiro - Hocus Pocus - São José dos Campos/SP
22hs. Rua Paraibuna, 838 (entrada pela Rua Maria Francisca Fróes, atrás da Unesp, no Jardim São Dimas). Ingressos: R$40 reais (antecipado) R$50 reais (na porta)

23 de fevereiro - Clash Club - São Paulo/SP.(portas: 19hs / shows começam às 20hs em ponto). Rua Barra Funda 969 - Barra Funda - tel: 11 36611500. Shows de abertura: MQN e Hats. Ingressos à venda a apartir de 11/02 na London Calling (11 32235300) R$60 reais (antecipado) R$80 reais (na porta) R$40 reais (estudante somente na London Calling). www.clashclub.com.br / www.londoncalling.com.br. Mais informações aqui.

5 comentários:

Raphael Caffarena disse...

Nem conheço direito, mas ficou legal a matéria!

ronaldo evangelista disse...

Achei pedante. Mas o que vale é a intenção, Terron!

iam disse...

gostei da sinceridade da donita. quem acompanhou a fase áurea do L7 deve se lembrar disso nas entrevistas. ela é classe A.

Ataque Frontal disse...

Muito boa a entrevista!
Parabéns!

Cherry ^~~^ disse...

sim gostei muito da entrevistae saber da nova donita parabens!
cherry