terça-feira, 20 de novembro de 2007

Entendendo a greve dos roteiristas


Nos EUA, só se fala da greve dos roteiristas de TV e cinema. Tudo parou: produção de filmes, de séries de televisão, os talk-shows todos. Mas você sabe o que os roteiristas querem? Procurei um desses grevistas para que ele explicasse melhor a situação. Speed Weed é integrante do Sindicato dos Roteiristas Norte-americanos e escreve, no momento, para a série New Amsterdam (que deve ser exibida na Fox, logo depois do American Idol).

A pergunta básica: por que vocês estão em greve?


Estamos em greve porque nossos contratos venceram no dia 31 de outubro e, naquela hora, as empresas ofereceram apenas uma renovação de nossos acordos e benefícios. Elas não tocaram no assunto principal, o que nos preocupava, e que é a respeito de como seremos pagos pelo material que escrevemos quando ele é distribuído pela internet.

Sabe-se que a distribuição de programas de TV pela internet é poderosa e que ela já até salvou alguns programas, como The Office. Então por que as emissoras negam isso tudo?

Eu não sabia desse caso que você citou. Mas eles não negam que essa nova mídia seja importante, só estão tendo duas-caras a respeito do lucro envolvido nela. Para Wall Street, eles exageram. Para nós, fazem-se de pobres coitadinhos. Se você ainda não assistiu a este vídeo, veja. Não é muito longo.



No começo das discussões os DVDS também eram um ponto polêmico. Isso já foi resolvido?

Não, nada foi resolvido até agora. É bom que você saiba que não faço parte do comitê de negociações, então não tenho um conhecimento muito grande sobre essas negociações. Em 1988, os estúdios alegavam que o home-video era "experimental" – não sabiam se conseguiriam lucrar com ele. Na época era muito caro fabricar as fitas VHS. Eles se fizeram de coitadinhos e nós nos rendemos. A regra da época determinou que o roteirista de um filme ganharia cerca de quatro centavos de dólar por cada fita vendida. E aí o que aconteceu foi: A) o negócio foi um grande sucesso e B) surgiram os DVDs, que são bem mais baratos para se fabricar. As empresas nunca permitiram que pudéssemos renegociar esses valores. Eles faturaram quantias gigantescas a partir de um produto que nasceu da criatividade dos roteiristas. E esses autores não viram nada desse lucro crescente. Pedimos para nossa parcela seja de oito centavos de dólar, mas essa história caiu no limbo. Nosso tema principal é mesmo a internet – que tem um custo praticamente nulo para as empresas. E achamos que a fórmula do DVD é um precedente para nossos pagamentos da internet.

Algumas pessoas já começaram a ser demitidas por causa da greve. Você acha que elas serão readmitidas com o fim da paralisação?

As pessoas estão sendo dispensadas porque as produções estão sendo paralisadas. O sindicato dos roteiristas nunca abandonou a mesa de discussão. Continuamos tentando negociar, mas as empresas se negaram a fazer isso nas duas últimas semanas. E elas aproveitaram a chance para demitir milhares de trabalhadores. Pessoalmente, fico muito nervoso ao ver que eles colocaram as pessoas na rua na época do Dia de Ação de Graças e antes do Natal. E que eles tenham se negado a negociar, não dando nem esperança de que essas pessoas possam voltar a trabalhar rapidamente. As empresas ficaram parecendo o senhor Burns e isso foi publicidade ruim para eles. Tudo isso, mais a solidariedade que temos visto, fez com que eles decidissem voltar a negociar no dia 26 de novembro. Assim que a cidade voltar a funcionar haverá trabalho para todos.

Vocês esperavam tanto apoio por parte dos atores?

Sim. Os problemas deles também são os nossos problemas. Agradecemos muito pelo apoio. Eles são bem mais bonitos que nós e precisamos desse apoio!

Existe um boato sobre uma possível greve dos atores e diretores. Isso vai ocorrer?

Mais uma vez, não estou qualificado a responder essa pergunta já que não participo das negociações.

Você vê um fim para a greve em breve?

Estou cautelosamente otimista. Ou otimistamente cauteloso. Não sei qual dos dois...

O que você diria às pessoas que estão ficando nervosas por não poderem assistir aos seus talk-shows e séries preferidas?

Que tudo é uma questão básica de justiça com os roteiristas, já que as empresas estão lucrando com o nosso trabalho. Quando o Paulo Coelho publica um livro, ele recebe por isso. Se a editora faz uma segunda edição e lucre com isso, ele recebe mais. É isso o que queremos. Quando nossos roteiros vão parar na internet e há lucro nisso, queremos ser pagos.

*Para saber mais sobre a greve:

- Yahoo! News

- Hollywood Reporter

- Variety

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