sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Tropicalista contemporâneo


Ao escutar Smokey Rolls Down Thunder Canyon, você pode ter - em vários momentos - aquela sensação de "que porra é essa?!?". O disco de Devendra Banhart vai fundo em sua diversidade e consegue, de forma surpreendente, manter sua unidade. O gospel "Saved" cai bem ao lado do rock "Tonada Yanomaminista" e da épica "Seahorse". A seguir, Devendra fala sobre Smokey em entrevista ao With Lasers. Para saber ainda mais sobre o trabalho (com depoimento do novo parceiro Rodrigo Amarante), corra até as bancas e compre a edição mais recente da Rolling Stone Brasil.

Você e o Rodrigo Amarante se conheceram no evento da Tropicália, Em Londres. Foi uma parceria feita nos céus?

Devendra Banhart - Foi como se o Egito fosse gentilmente arrancado do bico do grande thunderbird no céu [nota do WL: essa é uma referência à criação do mundo segundo uma lenda dos nativos norte-americanos], um verdadeiro presente, uma irmã do mesmo útero trovejante.


Por que esse método de gravar suas canções em casa é melhor?


Eu nunca disse que era melhor. Desta vez só tinha de ser assim. Você tem de mudar, sempre.

Em seus dois último discos as músicas têm uma sonoridade mais "de banda", o que é bem diferente de, por exemplo, Niño Rojo. Por quê?


Veja a resposta anterior. E desta vez vou citar Miles Davis: "Se você não mudar, vai acabar como um cantor de folk, tocando em museus e sendo um filho da puta regional." Uma coincidência engraçada é que tocamos no Museu de Arte Moderna de San Francisco um tempo atrás [risos].

Como o ator Gael García Bernal foi parar no disco? Essa música faz parte do filme que ele dirigiu, não?

Ele me pediu para escrever uma canção para filme dele, Déficit. Identifiquei-me com os personagens, com a alegoria, e tudo isso me levou a um sentimento puro sul-americano de vazio, que vocês chamam de "saudade". Nós o chamamos de "novela da vovó" – e, rapaz, ele dói docemente.

No ano passado você já havia dito que tinha interesse nos Yanomami. Agora você escreveu "Tonada Yanomaminista". Como essa música nasceu?


Bom, passamos um tempo com eles, meio sem querer, na fronteira do Brasil com a Venezuela. O Rodrigo estava conosco, era perto de um ponto de energia, perto de uma vila. Todos nós consumimos um pouquinho de Yopo, o suficiente para inspirar essa música.


Você continuou em contato com o Caetano Veloso? Por que ele não participou do CD, como você queria?

Ainda estou esperando que ele cante em um disco meu! Pode ser um arroto, qualquer coisa! Brincadeira... Caetano é o cara! Mas eu preciso ter algo que seja digno dele – e ainda não consegui. Talvez um dia eu escreva algo que seja digno de um sussurro dele.

Normalmente os músicos têm medo de tocar – especialmente quando estão gravando – instrumentos com os quais eles não tenham intimidade. O seu disco novo tem dezenas de instrumentos. Isso é algo que você decidiu antes de começar a gravar ou foi natural?

Não somos só nós tocando os instrumentos exóticos – Chris Robinson, do Black Crowes, arrasa no charango! É mais como fazer o corte certo para que cada música se torne a roupa que merece. Como eu poderia escrever uma canção sobre a Venezuela sem um cuatro? Ou um samba sem a cuíca? Por outro lado, é divertido aproximas essas coisas todas umas das outras, é mais tropicalista!

Inicialmente você queria gravar esse CD no Brasil, fazendo um tributo à Tropicália, mas acabou gravando nos EUA mesmo. Mas escutando o resultado final, talvez ele tenha acabado sendo ainda mais tropicalista dessa forma, sem ser declaradamente e claramente tropicalista. Concorda?

Concordo, apesar de eu nunca ter dito que faria um tributo tropicalista. Só disse que eu, Andy Cabic e Noah estávamos planejando fazer um álbum em brasileiro – não em português! [risos] Seria com nossas músicas preferidas, como "Sangue Latino" (Secos e Molhados), muitas da Caetano, "Preta Pretinha", "Mistério do Planeta" ou "Acabou Chorare" (Novos Baianos), "O Mar" (Dorival Caymmi), "Kalu" (Humberto Teixeira), "Sorriso Dela" (Erasmo Carlos), "Novena" (Alceu Valença), alguma coisa do Gil e do Jorge Ben... Talvez "Zumbi", do Quarteto em Cy - e até uma música do Dick Farney! E assim vai. Aí queríamos também gravar coisa de autores de toda a América do Sul, como Víctor Jara, Atahualpa Yupanqui, Violetta Para, Eduardo Mateo, Roy Brown, Simon Diaz... E aí, com todas as canções do Rodrigo, pensamos em fazer um disco só delas! E aí tudo foi ficando demais e resolvemos fazer este disco e agora vou aprender a tocar guitarra e a cantar e tentar a sorte em outros projetos, talvez. Shooooooooooooooooofa!

[as fotos desta página são de Lauren Dukoff e estão no site oficial de Devendra Banhart]

Um comentário:

Anônimo disse...

impagável!